Um olhar sobre oncologia veterinária



A especialidade e sua rotina pelo olhar da médica-veterinária, doutora Simone Crestoni Fernandes que compartilhou conosco um pouco sobre seu conhecimento na área e sua visão do mercado



Entrevista: Mariana Vilela, da redação






A oncologia veterinária é uma especialidade que tem ganhado destaque devido ao aumento da ocorrência de problemas oncológicos nos animais, resultado da vida mais longa dos pets e do maior cuidado dos seus tutores. É uma área um tanto quanto desafiadora para os veterinários, além de exigir um pouco mais de atenção com o lado psicológico, tanto dos profissionais quanto dos tutores.


E para falar mais sobre essa especialidade, convidamos a médica-veterinária, Simone Crestoni Fernandes, mestre e doutora, sócia proprietária da SEOVET (Serviço especializado em oncologia veterinária), que atua em oncologia clínica e cirúrgica em diversas clínicas e hospitais da Capital Paulista e região, coordenadora de cursos de pós-graduação, membro da diretoria da Associação Brasileira de Oncologia Veterinária (ABROVET).


Simone Crestoni Fernandes e Sky


Revista Vet&Share: Conte-nos um pouco sobre sua história na área de oncologia.


Simone Crestoni Fernandes: Após me formar, fiquei na clínica geral por um ano, mas sentia que faltava me aprofundar em algo. E como na época eu gostava muito de cirurgia fui para a Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Jabuticabal (SP), que é uma referência em cirurgia e fiquei apaixonada pelo hospital, minha intenção era fazer a residência. Na entrevista, o professor orientador Carlos Dalek observou que eu tinha o perfil para pesquisa e, então, comecei a fazer mestrado.


O professor Carlos Dalek foi um dos precursores da oncologia veterinária no Brasil. Foi então que me apaixonei pela especialidade e passei por grande aprendizado. Meu mestrado foi em uma área praticamente desconhecida que é fazer sequenciamento de DNA de tumores de mama. Além disso, fiz atendimentos na época no setor de oncologia.


Após o mestrado voltei para São Paulo (SP) e fiz o doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Minha orientadora na época trabalhava com tumores de mama em mulheres. Consegui convencê-la a trabalhar com o tumor de mama de cadelas. Na medicina se tem muito mais trabalhos realizados e mais dinheiro para pesquisa e medicamentos. Me aprofundei na área de pesquisa e, em seguida, fiquei seis meses na Escócia.


Ao voltar para o Brasil comecei a fazer atendimento volante na área de oncologia e, devido a demanda, hoje tenho uma equipe de veterinários oncologistas que trabalham comigo.


Vet&Share: Como é sua rotina clínica e como recebe os pacientes?


Simone: Normalmente os pacientes que atendo são encaminhados por outros veterinários, mas também há aqueles tutores que me procuram direto, assim que percebem um nódulo no animal. A maioria dos pacientes que atendo são de hospitais ou clínicas que dou suporte. Muitos veterinários também me consultam sobre alguns casos dos quais dou instruções ou faço o atendimento.


Já aconteceu também de o tutor do paciente querer que eu continuasse atendendo, mas não atendo como clínica geral, então encaminho para outro veterinário.


Vet&Share: E quais os casos mais comuns que você atende?


Simone: Casos de linfoma em cães, linfoma gastrointestinal em gatos, mastocitoma, que é um tumor de pele em cães, carcinoma células escamosas em gato tumores que acometem normalmente nariz e orelha, e tem relação com o sol. Esses são os mais comuns.


Há também o tumor de mama, extremamente comum. Mas esse é um tipo de tumor que na maioria das vezes o clínico geral não me encaminha. Ele só encaminha quando tem metástases. A cirurgia de tumor de mama é muito comum e muitos sabem fazer, pois é um tipo de cirurgia que a gente aprende na faculdade. Nos lugares que eu trabalho eu treino os clínicos antes da cirurgia, para mostrar, por exemplo, qual linfonodo remover, quais mamas, ou ainda identificar quando me encaminhar. É preciso ter jogo de cintura nesses casos.


Eu costumo brincar que alguns veterinários acham que eu sou quimioterapeuta. Me mandam o laudo e perguntam: ‘precisa de quimio ou não?’ Só que é necessária uma análise mais completa como, por exemplo, saber onde estava o tumor, qual o tamanho, quanto foi removido, se fez raio X de tórax, se tem metástase, se é a primeira cirurgia ou tem recidiva etc. O oncologista precisa trabalhar desde o início do diagnóstico, tem que fazer o estadiamento, ver onde está o tumor, se está só ali no local ou se está em outros locais. Ajudar a fechar esse diagnóstico para depois pensar no tratamento.


Além disso, o tratamento algumas vezes tem mais de uma opção, então eu gosto de conversar com os tutores sobre essas opções, por exemplo, se tem um tumor em uma mama só, se vamos tirar só essa mama, mas tem chance de aparecer nas outras mamas, se vale a pena tirar as outras, conversar sobre os pros e contras. Ou ainda explicar os riscos de um tumor no fígado, fazer ou não a cirurgia. Dependendo do caso podemos fazer a quimioterapia e diminuir o tumor para operar, por exemplo, se o tumor está em membro que é um lugar que não tem muita pele. Em outros casos fazemos a eletro quimio no local da cirurgia para conseguir ter certeza de que tudo foi eliminado. Em outros casos a primeira indicação é a radioterapia e não a cirurgia.


Outra questão importante é que dependendo da cirurgia vai depender muito conhecimento como da parte reconstrutiva. Então quando o clínico faz a parte inicial eu acabo perdendo muita coisa, e as vezes até mesmo tendo que refazer uma cirurgia.

Vet&Share: A cirurgia reconstrutiva pode ser feita por qualquer veterinário?


Simone: A cirurgia reconstrutiva é uma cirurgia complexa. É preciso ter um grande conhecimento de vascularização para o retalho não morrer e não necrosar tudo. É preciso também ter um grande conhecimento do tumor para saber a margem que você vai ter que remover. Outro ponto importante é identificar se é necessário fazer algum procedimento como, por exemplo, a eletro quimioterapia na margem e, então, fazer a reconstrução.


O cirurgião que faz a cirurgia reconstrutiva e a cirurgia oncológica tem que ter um treinamento extra. Ele é um é um profissional que precisa conhecer a doença, pois não adianta fazer uma cirurgia sem margem, o tumor vai voltar e quando voltar será pior. É muito melhor realizar uma primeira cirurgia bem-feita com margens amplas e com a certeza de que vai conseguiu remover tudo e ter sucesso no resultado. Não basta apenas ser um cirurgião geral, ele é um cirurgião que tem que conhecer sobre oncologia.


Um dos destaques nessa área é o professor Andrigo Barboza de Nardi, fiz um curso dele de um ano de duração de cirurgia reconstrutiva e oncológica. Ele é um dos precursores em mostrar como é importante ter esse conhecimento da doença para poder fazer uma cirurgia bem-feita.


Na medicina humana esse tipo de coisa é muito separado. Tem cirurgião só de tumores gástricos, outro só de tumores pulmonares etc. Eu não sei se a veterinária um dia vai chegar a ser assim. Mas acho que o cirurgião deve ter o conhecimento da doença em questão.

Vet&Share: Hoje os jovens saem da faculdade já querendo se especializar em algo. Você acha que isso pode prejudicar o profissional a ter uma vivência na clínica como um todo?


Simone: Eu acho que a clínica geral é soberana. E para o veterinário ser oncologista é preciso ter uma base, pois vai mexer com todos os sistemas. É preciso saber detectar as alterações, como tratar, o que significa as alterações nos exames, se o paciente está vomitando ou enjoado, com dor e o que você pode fazer pra melhorar isso etc. E isso só consegue tendo experiência.


Além disso, há muitas doenças concomitantes e pacientes que além do tumor, apresentam erliquiose, por exemplo, que causa anemia, causa trombocitopenia. Então é preciso tratar a doença do carrapato antes para depois fazer a cirurgia.


Acho muito importante fazer uma residência em clínica geral e até mesmo atender um tempo na emergência. Fazer esses atendimentos e saber como lidar, com certeza fará o oncologista ser melhor. Não tenham dúvidas. Até hoje quando estou em alguma clínica, no intervalo de atendimento e outro, vou na internação e fico assistindo, gosto de discutir casos. Conhecimento que é importantíssimo.


Vet&Share: E falando agora sobre os tutores. Sabemos que o diagnóstico tardio de um tumor pode dificultar o tratamento. Como tem sido a rotina quanto a isso?


Simone: Depende muito da região. Há regiões que são mais carentes e às vezes por falta de dinheiro o tutor não leva para o veterinário. Então quando chega em uma situação muito feia ele acaba levando. E normalmente também são aqueles pacientes que ficam no quintal que o tutor pode demorar mais para notar alguma alteração. Diferente daquela pessoa que toda hora está com o cachorro ou gato no colo fazendo carinho.


Vai depender muito do caso que pode envolver desde impossibilidade financeira e, até mesmo, negligência. Há também os tumores invisíveis e silenciosos que quando começa a dar sintoma está bem avançado. Por isso a importância do check up, principalmente em cães de mais idade.


Vet&Share: E com relação a tratamento na oncologia veterinária, o que há de novo?


Simone: Quando falamos em tratamento local, a cirurgia sempre é a primeira opção na oncologia, mas temos muitas outras opções de tratamentos que podemos utilizar de forma isolada ou para complementar o tratamento pré ou pós cirurgia.


Há a crioterapia ou criocirurgia (que é um modo mais correto de falar), há a eletro quimioterapia, que ajuda muito a obter as margens cirúrgicas e, em casos de gatos com carcinomas no nariz ou na orelha, muitas vezes é possível fazer um tratamento único com uma resposta excelente. Para reduzir tumores temos a radioterapia, que é um procedimento mais novo aqui no Brasil.


E quanto aos tratamentos sistêmicos, temos a quimioterapia. O problema dos quimioterápicos é que as vezes os medicamentos somem do mercado e ficamos desesperados, precisamos importar, o custo é muito alto, isso acaba dificultando a utilização na rotina.


Temos também a imunoterapia. E um trabalho que vale citar é o da professora Cris Massocco da USP, que tem um projeto de vacinas para melanoma. Outro trabalho interessante é relacionado ao medicamento chamado Oncotrad, criado por um médico da Unicamp em Campinas (SP), que utilizamos com nossos pacientes, essa medicação não está à venda, mas conseguimos incluir alguns pacientes no projeto.


Já a terapia alvo, que eu vejo que é o que está mais em destaque na medicina humana é uma coisa que vemos pouco na veterinária. São os anticorpos monoclonais ou os inibidores de tirosina-quinase. Essas medicações identificam um alvo, um defeito, uma alteração de genética e vão agir exatamente nessa alteração. Então, isso faz com que a resposta seja mais importante nessa região e as outras células não sejam tão atingidas.


Temos alguns medicamentos na medicina veterinária, um deles é o toceranib (Palladia), utilizado principalmente para mastocitoma, mas como ele tem alguns alvos, hoje em dia há alguns estudos que nos permite utilizar em alguns outros tumores. Há o masitinib (Masivet) que também é para mastocitoma e que tem como alvo o c-kit, uma proteína comumente alterada nos mastocitomas.


Há muitos outros que estão sendo estudados e que ainda não estão disponíveis no mercado. Então ficamos na expectativa. Na medicina humana há medicamentos alvos para todos os tumores praticamente e eles aumentam muito a sobrevida desses pacientes. Na veterinária acredito que isso está crescendo e, provavelmente, vai mudar muito os próximos anos e ajudar a tratar esses pacientes.


Vet&Share: Que mensagem você gostaria de deixar para os veterinários?


Simone: A oncologia é uma área maravilhosa que aborda todos os sistemas, inclui clínica, cirurgia, patologia e tem que estudar para resto da vida. É uma área encantadora, mas é preciso cuidar do nosso psicológico, pois vem carregada de tristeza devido as complicações dos quadros clínicos, aos óbitos, pacientes terminais, tutores abalados. É preciso nos proteger emocionalmente para que nossa vida pessoal não seja atingida.


Além disso, precisamos nos preparar para conseguir ajudar os tutores que estão emocionalmente fragilizados a tomar decisões no tratamento. É preciso ter empatia com a dor do tutor.





Simone Crestoni Fernandes e a cachorrinha Sky


Graduação em medicina veterinária pela Universidade Paulista (UNIP) - 2002

Mestrado em Cirurgia Veterinária pela Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Estadual Paulista (FCAV/UNESP/Jaboticabal/SP) - 2008

Doutorado em Oncologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) -2013 - com parte no Serviço de Oncologia Veterinária do Hospital para Pequenos Animais e no Roslin Institute, The University of Edinburgh (Edimburgo/Escócia) -2012

Ministra aulas e palestras em Cursos de pós-graduação e congressos nacionais e internacionais

Coordenadora do curso de pós-graduação em Oncologia Veterinária da UFAPE/São Paulo/SP

Possui trabalhos publicados em periódicos e em congressos nacionais e internacionais

Autora de capítulos de livros

Sócio-proprietária da SEOVET (Serviço especializado em oncologia veterinária), atuando em oncologia clínica e cirúrgica em diversas clínicas e hospitais de São Paulo e região

Membro da diretoria da ABROVET (Associação Brasileira de Oncologia Veterinária)

Sub-coordenadora da supraespecialidade de Nutrição Oncológica da ABROVET (Associação Brasileira de Oncologia Veterinária)

Membro da supraespecialidade de Eletroquimioterapia da ABROVET (Associação Brasileira de Oncologia Veterinária)

Membro da supraespecialidade de Psico-oncologia da ABROVET (Associação Brasileira de Oncologia Veterinária)

Membro do grupo de estudos PSICONVET (psico-oncologia veterinária)

Membro honorária da Associação Mexicana de Oncologia Veterinária (Amoncovet)

Membro da Veterinary Cancer Society (VCS)