Senilidade ou senescência?


Por Mariana Vilela, da redação


Paciente geriátrico não é sinônimo de doença e/ou sentença morte. Tutores precisam ser orientados a realizar todos os exames necessários, de preferência preventivos, para identificar possíveis patologias e tratamentos que vão oferecer mais tempo e melhor qualidade de vida aos pacientes de mais idade



Devido aos avanços da medicina veterinária no Brasil e no mundo, houve um aumento na longevidade dos pets nos últimos anos. De acordo com artigo publicado na Vet&Share na edição 54, de autoria de Enore Augusto Massoni, da Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV) (Confira na íntegra o artigo na editoria Review desta edição), houve um salto considerável na expectativa de vida dos animais de companhia: para cães de raças grandes a expectativa passou a ser de 12 anos, quando anteriormente era de apenas 7 e raças pequenas e gatos de 10 para 18 anos.



Crédito: iStock - SangSanit


Segundo o artigo de Enore, humanos e animais envelhecem de maneira muito semelhante. Existem fatores genéticos como doenças hereditárias e características fisiológicas pessoais que podem interferir na forma e na velocidade que isso ocorre. Fatores ambientais, como estresse e alimentação também têm ação direta sobre o avanço do processo de envelhecimento.


A médica-veterinária Natália Oliveira, graduada em medicina veterinária pela Universidade Federal de Lavras (UFLA/MG), ultrassonografista volante que atende na região de Sorocaba (SP), ressalta que é preciso saber diferenciar o que são alterações fisiológicas naturais da idade e o que é processo patológico decorrente da idade, ou seja, senescência ou senilidade.


“O processo de senescência abrange as alterações decorrentes de processos fisiológicos do envelhecimento. Já a senilidade abrange as condições que acometem o indivíduo no decorrer da vida devido a mecanismos fisiopatológicos como, por exemplo, diabetes, hipertensão, cardiopatia, insuficiência renal entre outras alterações, incluindo as interferências ambientais e medicamentosas. É importante que o veterinário saiba essa diferença, porque na senilidade, o órgão realmente pode estar alterado secundário a uma patologia. Já no processo de senescência, ocorre o envelhecimento natural do órgão, como o cabelo branco, por exemplo, no ser humano. É um processo natural do envelhecimento, mas não significa que o cabelo branco indique uma doença”, destaca.


Segundo Natália, os tutores relatam que é muito comum o paciente geriátrico ser automaticamente considerado doente por alguns colegas veterinários. “A idade do paciente não é um indicativo de que ele realmente tenha alguma doença. Há muitos velhinhos saudáveis por aí. É importante realizar todos os exames necessários para descartar as possíveis patologias”.














Natália Oliveira, médica-veterinária, ultrassonografista volante


Crédito: Arquivo pessoal Natália Oliveira


Por isso, na opinião de Natália é muito importante os veterinários estudarem, se atualizarem e entenderem a condição dos pacientes de mais idade e suas alterações. “O médico-veterinário tem acesso hoje em dia a muitos estudos. Então a melhor forma de se preparar é estudando. A medicina veterinária é uma profissão que exige estudo para o resto da vida e a Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária, criada em 2018, tem o objetivo de ajudar nessa busca pela atualização. Em um passado recente, muitas pessoas achavam que o paciente geriátrico não tinha um veterinário especializado. Porém atualmente existe o veterinário geriatra que entende sobre a senilidade, sobre os processos de senescência, que exige um laudo de ultrassom ou raio-x com impressões diagnósticas que auxiliem nas condutas do caso, incluindo as diferenças da imagem de um órgão senil ou senescente e não automaticamente correlacionado a idade do paciente com o órgão doente”, pontua.



“O processo de senescência abrange as alterações decorrentes de processos fisiológicos do envelhecimento. Já a senilidade abrange as condições que acometem o indivíduo no decorrer da vida devido a mecanismos fisiopatológicos."

É importante entender, observa Natália, que o paciente geriátrico já não tem mais a mesma energia de um jovem e muitas vezes tem limitações de locomoção. “Tanto na parte clínica quanto na parte de diagnóstico por imagem, precisamos levar em conta o processo senil e entender que aquele paciente com 15 anos que estamos atendendo possui órgãos com 15 anos, os quais passaram por muitas interferências genéticas, ambientais, medicamentosas e patológicas”.


Acolhimento e empatia

Natália reforça que o veterinário precisar lembrar que o paciente geriátrico, na grande maioria das vezes está há muitos anos com aquele tutor, por isso é preciso tomar muito cuidado com o que e como vai falar sobre as condições do pet para o tutor, pois há um grande vínculo emocional entre eles. Além disso, muitas vezes é um tutor idoso que leva um paciente idoso. “A atenção com as palavras e a forma de falar são essenciais”.


O que acontece também, conta Natália, é que recebe muitos tutores de pacientes geriátricos desesperados para repetir o ultrassom, dizendo que a eutanásia foi sugerida, mediante a um exame de imagem que interrogou muitas alterações ou, ainda, assustados, porque indicaram cirurgia e ele já fica frustrado e triste pensando que não poderá fazer por conta da anestesia. “O que vejo é que esses tutores querem e precisam de mais acolhimento por parte da equipe veterinária. Precisam ser recebidos com mais empatia. Algumas vezes os casos podem ser solucionados, porém são necessários exames complementares para chegar a um diagnóstico e indicar o melhor tratamento ”, alerta e complementa: “Temos que mostrar aos tutores que o paciente idoso não necessariamente está doente. Hoje em dia há muitas alternativas de tratamentos e que oferecem aos pacientes uma melhor qualidade de vida”.


Exames de imagens e paciente idoso

Na hora de fazer o exame de imagem, Natália conta que um dos desafios é posicionar o paciente. “Vamos supor que seja um paciente de 16 anos. Ele pode ter uma alteração cardíaca, por exemplo. Então este paciente não vai conseguir ficar de barriguinha para cima durante o tempo que eu necessito para executar o exame. É um perfil de paciente que demanda mais paciência e um tempo maior para fazer o exame, pois ele pode ter dificuldade para respirar, ele pode ter dor articular e na hora de fazer a tricotomia, é preciso ter mais cuidado, pois a pele está mais fina”.


E quanto a interpretação das imagens, Natália conta que é preciso tomar cuidado, pois aquela imagem do paciente idoso pode significar uma patologia, mas também pode significar o processo de senescência. “Pelo ultrassom infelizmente não conseguimos diferenciar se aquele paciente tem uma alteração patológica ou se é uma alteração secundária ao processo de senescência. Por isso, na hora de fazer o laudo, descrevemos todas as imagens, as alterações e colocamos os diagnósticos diferenciais, mas para concluir o diagnóstico, precisamos dos exames bioquímicos e de outros exames de imagem. Não podemos esquecer que o ultrassom é um exame complementar”.


Check up

Hoje em dia é recomendado check up para todos os pets a partir dos seis meses de idade, uma vez ao ano pelo menos. Ao entrar em idade sênior, é recomendado fazer um check up a cada seis meses, principalmente se já houver alterações em exames. O check up deve ser composto por exames de sangue, exames de imagens, exames cardiológicos e o que mais o veterinário avaliar ser importante para aquele paciente.


De acordo com Natália, apesar do número de pacientes que realizam o ultrassom ainda ser em sua maioria os de mais idade, hoje em dia há cada vez mais pacientes em idade pediátrica fazendo exames de imagem, por exemplo, daquele tutor que acabou de adquirir o cachorro e o veterinário já recomenda o ultrassom pensando em alteração congênita. “O exame de ultrassom veterinário está tão avançando que já nos permite visualizar até mesmo nos fetos, as alterações congênitas. É muito melhor fazer um diagnóstico precoce do que encontrar uma alteração que o paciente pode precisar de uma cirurgia imediatamente. Muitos pacientes geriátricos nunca fizeram ultrassom na vida e muitas vezes chegam em emergência. É comum ouvir o tutor dizer que aquele animal nunca ficou doente. Mas será que nunca adoeceu ou será que ninguém percebeu os sinais? Por isso a importância do nosso papel ao orientar esse tutor em fazer exames preventivos”.



Anestesia em pacientes idosos


Muitos tutores ficam em dúvidas se um paciente de mais idade pode ou não ser anestesiado. Assim como na medicina humana, os estudos da anestesiologia veterinária estão cada vez mais avançados com o objetivo de buscar novas técnicas e associações entre fármacos que minimizem os efeitos colaterais ou maximizar os benefícios dos fármacos.


A médica-veterinária Fernanda Antunes, professora de anestesiologia e atualmente chefe do hospital veterinário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF/RJ), destaca que em relação a idade não existe impedimento com anestesia ou qualquer medicamento, pois os animais estão envelhecendo com mais saúde, resultado de uma boa alimentação ao longo da vida e aos cuidados dos tutores. “O que normalmente esperamos é um animal com mais dificuldade em metabolizar alguns fármacos e eliminar também”, explica.


Por isso a importância de realizar todos os exames necessários para determinar o risco anestésico potencial do animal.


















Fernanda Antunes

Médica-veterinária, professora de anestesiologia

Crédito: Arquivo pessoal Fernanda Antunes