Qualidade de vida do paciente idoso

O envelhecimento dos animais cria o desafio de alterar a abordagem clínica desses pacientes, direcionando seu atendimento e respeitando as particularidades de cada um, visando maior longevidade com qualidade para os pacientes e conforto para os clientes


Por Enore Augusto Massoni*


Atualmente, devido aos avanços da medicina veterinária no Brasil e no mundo, nossos pacientes vivem cada vez mais. Houve um salto considerável na expectativa de vida dos animais de companhia, onde para cães de raças grandes passou a ser de 12 anos, quando anteriormente era de apenas 7, raças pequenas e gatos de 10 para 18 anos.


Humanos e animais envelhecem de maneira muito semelhante. Existem fatores genéticos como doenças hereditárias e características fisiológicas pessoais que podem interferir na forma e na velocidade que isso ocorre. Fatores ambientais, como estresse e alimentação também têm ação direta sobre o avanço do processo de envelhecimento.


Cães e gatos não sabem que estão envelhecendo, não entendem o porquê não enxergam direito as feições dos seus tutores que sempre foram tão familiares, porque não conseguem mais ouvir o seu chamado para deitar no sofá no fim do dia ou o motivo de sentir dor ao tentar correr atrás daquela bolinha ligeira. Eles apenas sentem as limitações que aparecerem com o tempo e às aceitam, muitas vezes melhor até que nós mesmos, que acompanhamos as mudanças de nossos fiéis companheiros muito mais cedo do que gostaríamos que acontecessem.


Levando isso em consideração é preciso estar bem informado para orientar da melhor forma nossos clientes sobre os cuidados com seus animais idosos. Saber informar sobre o envelhecimento, suas características e as mudanças na rotina que ele implica é função do médico-veterinário, por isso, recentemente a geriatria vem ganhando espaço nos hospitais, clínicas e consultórios veterinários. A facilidade de acesso à informação leva também a um considerável aumento do interesse por parte dos tutores em procurar por um profissional capacitado a atender seu animal idoso.



Crédito: divulgação


O envelhecimento dos animais cria o desafio de alterar a abordagem clínica desses pacientes, direcionando seu atendimento e respeitando as particularidades de cada um, visando maior longevidade com qualidade para nossos pacientes e conforto para nossos clientes. A geriatria veterinária é o ramo da clínica e cirurgia que trata os problemas relacionados a velhice ou senilidade e visa proporcionar, principalmente, qualidade de vida para cães e gatos idosos.


O paciente já é considerado idoso?

Definir o momento que um animal se torna idoso não é tão simples, existem diversos fatores que influenciam o momento exato da entrada de nossos companheiros na ¨melhor idade¨. Geralmente animais que atingem 2/3 da expectativa de vida, ou seja, entre 7 e 8 anos para cães e 9 e 10 anos para gatos, podem ser considerados idosos.


Os check-ups devem ser ajustados de acordo com a gravidade de cada caso, por exemplo, animais jovens e saudáveis, devem visitar o veterinário 1 vez ao ano e animais idosos sem doenças diagnosticadas pelo menos a cada 6 meses, sendo que, os intervalos podem ficar mais curtos de acordo com as comorbidades observadas em cada paciente. Por exemplo, um cão de 15 anos com hiperadrenocorticismo, doença renal crônica e diabetes melittus deve visitar o veterinário mensalmente.


Por isso existe a necessidade da implementação de um “Programa de Saúde do Animal Idoso”, onde pode ser feito o controle minucioso de consultas, exames e retornos, evitando o agravamento das doenças por falta de atenção do médico-veterinário responsável. Com relação aos programas de saúde, podemos tomar como exemplo o SUS (Sistema Único de Saúde) para a medicina humana que implementou a “Caderneta de Saúde do Idoso”, uma espécie de cartilha onde se encontram informações sobre o envelhecimento, cronograma para agendamento de consultas e retornos, principais exames recomendados e vacinas para o paciente idoso. Atitudes simples como estas podem ser adotadas pela medicina veterinária, assim trazendo o paciente idoso para check-ups com maior frequência.


A partir do momento que nosso paciente já pode ser considerado idoso, antes mesmo do surgimento de qualquer condição clínica, alguns cuidados especiais podem e devem ser tomados pelo clínico para garantir uma velhice mais saudável e com mais qualidade de vida.

Alimentação

O primeiro ponto a ser observado é a alimentação, a ração habitual dos animais deve ser substituída por uma ração sênior, esta como característica principal apresenta o teor mais elevado de proteínas e menor teor de carboidratos, pois animais idosos tendem a acumular gordura e perder massa muscular, deve-se estar atento aos pacientes que possuem alguma doença que necessita uma dieta específica, como um doente renal em estágio avançado que deve ter uma ingestão de proteína reduzida ou seja, este paciente precisa de um acompanhamento dietético mais rigoroso e precisa receber maior teor de proteína, porém deve ser de boa qualidade e boa digestibilidade.


Exercícios

Levando em consideração ainda a perda de massa muscular citada anteriormente, cães e gatos em idade avançada devem ser estimulados a prática de atividades físicas, não com a mesma intensidade que um animal jovem, mas ainda precisam manter-se em atividade para retardar o processo. Atualmente temos a disposição centros de fisioterapia e fisiatria animal que podem ser utilizados, não só para reabilitação, mas também para o fortalecimento muscular e retardamento das degenerações articulares provocadas pelo avanço da idade, estas podem ser consideradas um fator importante que influencia diretamente a prática de atividades físicas.


Algumas atitudes simples podem ser tomadas para garantir maior conforto para os animais idosos, animais que habitualmente sobem em sofás e/ou camas podem perder essa capacidade, por isso, pode ser feita uma escada para auxiliar a manutenção desse tipo de comportamento. Fitas antiderrapantes podem ser utilizadas em corredores e áreas muito frequentadas pelos animais, da mesma maneira que caminhas mais macias podem evitar o aparecimento dos higromas, mais conhecidos como calos de apoio, que devido a maior fragilidade da pele desses animais podem ulcerar mais frequentemente.


Desgaste e disfunção

Com seu avanço, o envelhecimento promove desgaste e disfunção em diversos órgãos e sistemas, modificando a maneira que o organismo responde a doenças e aos mais variados estímulos, é difícil determinar quando e qual disfunção irá ocorrer. O sistema nervoso perde em número e qualidade neurônios funcionais, sinapses e neurotransmissores, causando retardamento na condução dos estímulos nervosos e nas percepções de estímulos externos, o que ocasiona, em alguns sinais comuns em doenças neurológicas como mioclonias, apatia e crises convulsivas focais. Além da diminuição da resposta sensorial motora e da diminuição da massa muscular o sistema locomotor também é acometido pelo desgaste articular e perda da densidade óssea, provocando dores crônicas, dificuldade de locomoção e fraturas patológicas. Os pulmões perdem elasticidade e juntamente com a diminuição da musculatura intercostal a respiração fica mais difícil e desgastante, coração perde massa muscular e capacidade de contração e as veias perdem elasticidade e conformação, causando dificuldade do bombeamento de sangue para vasos mais periféricos predispondo ao edema. Os rins apresentam menor número de néfrons funcionais, decaindo assim a taxa de filtração glomerular e consequente acúmulo de metabólitos, como ureia e creatinina no sangue e a bexiga perde elasticidade dificultando seu esvaziamento por completo e predispondo a cistites recorrentes.


Quando não é feita uma boa profilaxia e a correta higienização da boca dos animais, eles tendem, quando idosos, a apresentar doença periodontal grave com grande acúmulo de cálculos dentários o que muitas vezes precede a perda precoce dos dentes, fato que trará mais dificuldade na preensão e mastigação dos alimentos, junto a isso, eles também perdem capacidade de absorção de nutrientes devido à perda de vilosidades intestinais, por isso é necessário o fornecimento de alimentos de fácil mastigação e boa digestibilidade para garantir que as quantidades ingeridas sejam bem aproveitadas.


O sistema endócrino pode apresentar diversas alterações, pode ocorrer o aumento da produção de glicocorticoides no hiperadrenocorticismo, a diminuição de triiodotironina e tiroxina no hipotireoidismo ,e no caso de diabetes, pode ocorrer a não produção de insulina ou a resistência do organismo a mesma onde ela perde a capacidade de promover o transporte da glicose para dentro da célula causando hiperglicemia. O sistema imunológico diminui a produção de linfócitos e anticorpos, o que nos deixa em dúvida com relação a periodicidade e necessidade das vacinações em animais idosos sendo sempre recomendada a titulação de anticorpos antes da vacinação. Pele e mucosas perdem, em parte ou totalmente, a barreira natural de proteção, predispondo o animal a infecções oportunistas.


Na abordagem terapêutica devemos estar atentos que cães e gatos em idade avançada apresentam perda de massa hepática e comprometimento da função renal, sendo assim, é necessário adequar os protocolos terapêuticos a cada paciente e utilizar medicamentos somente quando realmente necessário e para isso é fundamental conhecer detalhadamente suas particularidades farmacológicas como, vias de distribuição, metabolização e excreção, evitando sobrecarregar os sistemas envolvidos no processo.


No momento da elaboração do protocolo terapêutico deve-se levar em consideração a questão logística, e imaginar que um animal idoso ao ter que ingerir uma quantidade alta de comprimidos ao longo do dia em diversos horários pode comprometer sua qualidade de vida e a gestão de tempo dos tutores, sempre que possível os medicamentos devem ser administrados de maneira conjunta ou então embutidos na alimentação, como por exemplo os nutracêuticos que já fazem parte das formulas de ração sênior.


Síndrome da Disfunção Cognitiva

Uma condição que assombra a clínica de animais idosos é a Síndrome da Disfunção Cognitiva, também conhecido como “Alzheimer Canino”, onde, por uma diversidade de fatores os animais perdem grande parte das funções cognitivas e passam a manifestar sinais neurológicos que afetam sua qualidade de vida e a de seus tutores, alteração no ciclo sono-vigília, dificuldade de deambulação. Há diversas maneiras de tornar os sintomas da disfunção cognitiva mais brandos e evitar a evolução muito rápida do quadro, porém, os tutores precisam estar cientes que é uma condição incurável e de evolução gradativa. A constante estimulação do animal idoso pode adiar a evolução da condição. Qualquer atividade que induza o raciocínio como brincadeiras, mudar o local da comida, esconder petiscos e passeios em locais diferentes dos habituais são exemplos, mas, deve se ter cuidado em mudanças muito bruscas de rotina que podem causar bastante estresse e afetar, de maneira negativa, a qualidade de vida desses animais.


Dietas ricas em ácidos graxos essenciais como ômega 3 e 6 podem amenizar os efeitos da doença assim como medicamentos específicos que atuam diretamente no sistema nervoso central, como a selegilina, que atua como inibidor de enzimas responsáveis pela degeneração de neurotransmissores e a n-acetilcisteína que possui atividade neuroprotetora, terapias alternativas são bem-vindas quando bem aceitas pelos tutores e demonstram efeitos satisfatórios quando associados com a terapia convencional, podem ser introduzidas, por exemplo, a acupuntura e a cromoterapia.


Os estímulos ambientais, na maioria das vezes, fazem muito bem aos cães e gatos idosos, são animais que convivem em sociedade. Em algumas situações surge a ideia, por parte dos tutores, de adquirir um novo animal de estimação, nesse momento em particular há a dúvida se devem ou não introduzir um novo membro na família, a resposta pode não ser tão simples, pois vários pontos precisam ser avaliados antes de adquirir um filhote e cada animal responde de maneira diferente a esse estímulo. Cães e gatos dominantes podem sentir seu território invadido e apresentar sinais de agressividade, alguns animais vão adorar a companhia e se sentir renovados. Nos casos em que o filhote é bem aceito é necessário ter atenção se o ele não vai fazer o companheiro velhinho gastar muita energia ou até complicar alguma doença articular devido a intensa atividade física iniciada de maneira abrupta, da mesma maneira que um filhote pode trazer vitalidade para o ambiente e isso refletir no animal idoso, deixando o mais ativo e disposto.


A medicina paliativa e a eutanásia

Uma área correlacionada com a geriatria é a medicina paliativa, que se resume ao conjunto de práticas para amenizar o sofrimento, oferecer dignidade e trazer qualidade de vida para animais com condições incuráveis. São cuidados providos por equipes multidisciplinares e que devem ter como objetivo principal o alívio da dor e otimização das funções orgânicas remanescentes, não esquecendo do acompanhamento psicológico dos tutores para que se preparem para o final da vida de seu animal de estimação.


Quando falamos sobre saúde e qualidade de vida de animais idosos não podemos deixar de lado um assunto delicado, a eutanásia, pois pode chegar o momento em que o os tutores precisarão tomar essa difícil decisão e é dever do médico-veterinário acompanhar e orientar, solucionando quaisquer dúvidas para que tudo fique claro. Animais prezam muito pela qualidade de vida, então, a partir do momento em que não é possível mantê-la, deve-se pensar em eutanásia. Não há regra, cada um tem seu momento, existem métodos que podem facilitar a decisão como listar o que o animal gostava muito de fazer e contrapor com as atividades que ele não consegue ou tem dificuldade em desempenhar ou, então, fazer uma lista de dias bons e dias ruins, quando os dias ruins forem mais frequentes que os bons pode ser a hora da tomada da decisão. Todo momento de eutanásia é delicado, mas a do animal idoso é um pouco mais, normalmente é um momento planejado ou que vem sendo pensado há dias e podemos usar estratégias para tornar o momento que seria apenas doloroso em um momento de gratidão e alívio. É recomendado tornar o momento mais pessoal e íntimo possível, dar a opção do acompanhamento do procedimento pelos tutores, oferecer momentos a sós com o animal antes e/ou depois do procedimento são atitudes que fazem toda a diferença e tornam tudo menos traumático possível.


Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV)

Em vista do constante avanço da geriatria como especialidade, veterinários interessados no desenvolvimento da área fundaram a Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV). A entidade visa unir profissionais interessados em promover a geriatria, estabelecer protocolos e consensos, visando os melhores cuidados para animais em idade avançada. Outro objetivo importante é que a geriatria seja reconhecida como uma especialidade perante o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV). A SBGV ainda é recém-formada, porém conta com profissionais inscritos de diversas regiões do Brasil e apoio de membros eméritos de renome na medicina veterinária.


Os avanços na medicina veterinária e na relação entre tutor e animal de estimação podem definitivamente trazer mais qualidade de vida e conforto para os animais idosos. Para isso, medidas devem ser tomadas desde a pediatria e desde quando os primeiros sinais aparecem para tornar o envelhecimento um processo mais brando e saudável. A geriatria veterinária proporciona um estreitamento da relação entre os tutores e o médico-veterinário, este que, por sua vez, tem papel fundamental na instrução e no esclarecimento de quaisquer dúvidas que venham a ser levantadas e assim se torna uma espécie de “porto seguro” nessa fase tão difícil na vida de nossos pacientes.



*Enore Augusto Massoni

Médico-veterinário graduado pela Faculdade de Jussara UniFAJ – Jaguariúna/SP (2011), pós-graduação em geriatria em cães e gatos pela Faculdade Qualittas (2019), presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria Veterinária (SBGV) e responsável pelo atendimento de Geriatria do Centro de Especialidades Veterinárias (CEV) em Sorocaba (SP).