OTITE: comum e desafiadora

Frequentemente observadas na rotina veterinária, as otopatias em cães e gatos são um processo inflamatório (agudo ou crônico) no canal da orelha. A prevalência das otites é maior em cães, uma vez que a anatomia da orelha dos felinos é menos favorável às infecções. Apesar de rotineira, as otites em sua maioria fazem parte de um quadro secundário e sua causa primária precisa ser investigada pelo veterinário. Conversamos com duas veterinárias de diferentes regiões do Brasil para saber suas opiniões e como é a otite em suas rotinas.


Por Mariana Vilela


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Otites externas: quadro secundário na grande maioria dos casos


A médica-veterinária, Juliana Odaguiri, responsável pelo Serviço de Dermatologia de Pequenos Animais do Hospital Veterinário Interlagos 24 horas e da Clínica Zoo Parque, ambos na Capital Paulista, conta que as otites, sobretudo as externas, são muito frequentes no dia a dia, acometendo principalmente a espécie canina, traduzindo-se em quadro secundário na grande maioria dos casos.


De acordo com Juliana, as otites externas são as mais frequentes na espécie canina e o que mais precisamos saber em relação a elas é que se trata de quadros secundários, podendo ser ocasionadas pelas: alergopatias (consideradas as principais causas de otite externa nos cães, responsáveis por 75% dos casos), endocrinopatias (como hiperadrenocorticismo e hipotiroidismo), dermatopatias autoimunes (como pênfigo foliáceo), excesso de produção de cerúmen, doenças parasitárias (otoacaríase, demodiciose), neoplasias, pólipos, corpo estranho ou ainda, por limpeza inadequada.


" O maior desafio quando se trata do diagnóstico das otites externas ainda é a falta do conhecimento por parte de alguns profissionais em saber que as mesmas são sempre secundárias a outros quadros "

Há também as otites média e interna, aponta Juliana, sendo, 30% a 50% dos casos, considerados consequência da cronicidade das otites externas, a partir da ruptura da membrana timpânica. Em contrapartida, alguns cães, sobretudo os braquiocefálicos, como os das raças Pugs e Bulldog Francês, podem apresentar otite média secretória primária e colesteatoma primário, provavelmente por uma disfunção da tuba auditiva em face à sua genética e conformação do crânio. Ressaltando que o colesteatoma ocorre sobretudo em tais raças, não sendo uma exclusividade das mesmas. Na avaliação de Juliana, o maior desafio quando se trata do diagnóstico das otites externas ainda é a falta do conhecimento por parte de alguns profissionais em saber que as mesmas são sempre secundárias a outros quadros e, dessa forma, falhas quanto à investigação de suas causas primárias, levam à falta de realização das mais variadas opções de exames complementares (a exemplo da otoscopia, otoendoscopia, exames citológico e parasitológico de cerúmen, dentre outros) e também, da adequada triagem das alergopatias.


Quanto às otites média e interna, Juliana avalia que um dos principais desafios que percebe

no dia a dia é a resistência por parte de alguns tutores quanto à realização de exames de imagem para o adequado diagnóstico, como ressonância magnética, tomografia computadorizada e otoendoscopia, geralmente relacionado ao maior custo envolvido em tais procedimentos.


Outro desafio, de acordo com Juliana, é saber quando deve-se suspeitar das otites média e interna para assim, iniciar a adequada abordagem diagnóstica. “Alguns profissionais cogitam a possibilidade do envolvimento da otite média e interna no seu paciente, somente

diante do desenvolvimento de sintomatologia neurológica pelo mesmo. Atualmente, sabe-se que somente 10% dos animais com otite média apresentam sintomas neurológicos. E que cães com otite externa crônica, ou seja, aqueles que apresentam o quadro com um período de evolução superior a três meses, já apresentam risco de evolução para otite média e interna”.

Para as otites externas, Juliana explica que quando não há oclusão do conduto auditivo, além do uso otológico de ativos com ação antimicrobiana e ou anti-inflamatória, deve-se, adicionalmente, tratar ou controlar a sua causa primária para o sucesso do tratamento. "Lavagem ótica pode ser necessária em alguns casos em que a remoção do exsudato purulento não foi possível somente com o tratamento medicamentoso e, também,, naqueles casos em que se quer avaliar a presença de ulcerações, neoformações e presença de corpo estranho". Nos casos de otite média, Juliana afirma que a fibrootoscopia é necessária para adequada avaliação da membrana timpânica, quanto à necessidade de miringotomia (perfuração da membrana timpânica para coleta de material para cultura e antibiograma ou para histopatologia, diante da presença de formações solidas ou perdas teciduais).


As otites recidivantes são ocasionadas por falhas no diagnóstico. “Enquanto a causa que ocasionou a otite não for diagnosticada, tratada ou controlada, estaremos tratando somente

a consequência e, inevitavelmente, a otite irá se repetir com frequência”, reforça. E para um tratamento ter bom resultado é importante verificar se o tratamento escolhido poderá ser corretamente executado pelo tutor. “Acredito que não adianta prescrevermos o tratamento que julgamos como sendo o ideal para o paciente se o tutor não poderá realizá-lo, independente da sua razão. Porém, devemos também analisar se o tratamento que irá se adequar à rotina daquele tutor irá gerar algum impacto diferente do desejado e, dessa forma, dar clareza para esse cliente quanto a esse cenário. Acredito que a escolha do tratamento deve ser em comum acordo e a responsabilidade pelo mesmo compartilhada.


Juliana finaliza e destaca que é importante sempre ter em mente que as otites, de forma geral, são secundárias e, dessa forma, investigar, diagnosticar e tratar (ou controlar) sua causa primária está completamente vinculada ao sucesso do tratamento, maior satisfação do cliente e também do profissional, além de proporcionar o mais importante que é o bem-estar para os pacientes.



JULIANA ODAGUIRI

Médica-veterinária graduada pela UNESP (Botucatu/SP) em 2008, pósgraduada

(lato sensu) pela Universidade Anhembi Morumbi em 2010, mestre em

Clínica Veterinária, área Dermatologia, pela FMVZ | USP em 2013, ex primeira

tesoureira da SBDV durante a gestão de 2015 a 2018, coautora de capítulo

do Livro Tratado de Medicina Externa – Dermatologia Veterinária, associada

efetiva da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária desde 2009, responsável pelo Serviço de Dermatologia de Pequenos Animais do Hospital Veterinário Interlagos 24 horas

desde 2010 e da Clínica Zoo Parque desde 2017

@vet_dermato









 

Atenção ao tutor e solicitar exames



A médica-veterinária, Bruna Gabriela Kaiser Corrêa, que faz atendimento volante em Balneário Camboriú e região (SC) e consultoria online para veterinários nas áreas de nutrição pet e cannabis medicinal, conta que a casuística de otites é extremamente alta na rotina clínica. “Semanalmente são vários casos. Inclusive costumo diagnosticar muitas otites em animais que vieram com outras queixas. Por isso é importante o exame físico completo do animal, não me atento somente à queixa do tutor. Também fazer o swab otológico com avaliação citológica, conhecido como exame do cotonete, em


todos os animais atendidos, nos ajuda a ver se existem alterações em fases iniciais”, explica.


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Diagnosticar em estágio inicial seria muito melhor, porém nem sempre o tutor percebe alguma alteração ou vê a necessidade de levar ao veterinário. Bruna conta que existem tutores muito atenciosos, que assim que percebem qualquer alteração, já levam o pet ao veterinário. Mas também existem aqueles que demoram, e infelizmente hoje, estes ainda são a maioria. “Os tutores geralmente ficam esperando o animalzinho melhorar por conta própria, o que geralmente não acontece, ou tentam receitas caseiras passadas por amigos e familiares. Essa espera pode causar danos graves à saúde do animal. No caso das otites, o pet pode acabar perdendo a audição, e em casos mais graves, a otite pode levar à encefalite, causando lesões neurológicas. Por isso é fundamental que o tutor, percebendo qualquer alteração em seu bichinho, entre em contato com o médico-veterinário o mais rápido possível, não deixando que uma situação que poderia ter um tratamento mais simples e rápido possa se agravar”.


Há diferentes tipos de otites e de acordo com Bruna as principais são causadas por fungos, principalmente a Malassezia pachydermatis, e por bactérias. Também alguns tipos de ácaros, conhecidos como sarnas, podem estar presentes. “O importante é sempre tentar descobrir o que levou a esses quadros infecciosos, já que geralmente as otites têm uma causa de base, que leva a essas infecções secundárias. Essas causas de base podem ser desde distúrbios endócrinos, que diminuem a imunidade do animal como, por exemplo, o hiperadrenocorticismo, hipotireoidismo e diabetes, até problemas alérgicos, como por exemplo a síndrome dermatite atópica”.


E para que o diagnóstico seja feito corretamente, Bruna destaca que é imprescindível o exame citológico, feito através do swab do conduto auditivo e o diagnóstico de possíveis causas de base. “Ficar apenas achando que é isso ou aquilo, pode levar a erro na escolha do tratamento, levando às recidivas e à resistência microbiana aos medicamentos. E para o tratamento usamos principalmente medicamentos de uso tópico, mas também podemos utilizar medicamentos sistêmicos. Esses medicamentos, podem ser antibióticos, anti-inflamatórios, antifúngicos, anestésicos, parasiticidas, entre outros, a depender do quadro do paciente e do diagnóstico. O preconizado é fazer o exame de citologia e sempre que possível realizar cultura e antibiograma para definir a melhor medicação. Digo sempre que possível, porque realmente não são todos os tutores que podem ou que estão dispostos a pagar pelo exame. Nós como veterinários precisamos ter a sensibilidade de avaliar cada situação e mostrar a importância e o porquê de solicitar determinado exame ao tutor. Isso facilita na hora de ele aderir ao tratamento”.


Como dito acima, de acordo com Bruna, o uso incorreto de medicamentos pode levar à resistência microbiana, o que facilita ocorrer recidivas. Por isso, Bruna destaca que é tão importante “bater na tecla” do diagnóstico correto e da busca pela causa de base da otite. “Raramente o animal terá uma otite primária, praticamente todos os casos são ocasionados por alguma outra disfunção no organismo e é isso que precisa ser diagnosticado e tratado. Sem o tratamento dessa causa de base, as otites poderão ser tratadas dezenas de vezes, sempre com recidivas, levando ao insucesso terapêutico, o que ocasiona uma frustração grande tanto do tutor quanto do médico-veterinário, e o mais prejudicado é o animalzinho, que sofre justamente pela falta do diagnóstico correto”.


Desafios do tratamento

Após o diagnóstico, o desafio seguinte é escolher o melhor tratamento para aquele paciente. Segundo Bruna, muitos veterinários acham que o tutor precisa encaixar sua rotina no tratamento proposto por eles. “Costumo dizer que é o contrário. Nós como profissionais é que precisamos encaixar o tratamento na rotina do tutor, pois sem isso ele não irá aderir bem, podendo administrar os medicamentos de forma incorreta ou nem mesmo administrar. E isso é o que nós menos queremos, não é mesmo? É muito importante perguntar ao tutor quais os melhores horários e quais as formas que ele acha mais fácil de administrar os medicamentos, se por via oral, tópico, spray, pomada, se prefere comprimido ou líquido, se quer manipulado, em formato de biscoito, com sabor ou não. Hoje temos inúmeras formas farmacêuticas próprias para pets e para descobrirmos a melhor para cada caso, precisamos perguntar ao tutor o que é mais fácil para ele”, afirma.


E Bruna conclui: “Busque sempre a causa base! Peça exames, mas saiba por que está pedindo e o que espera encontrar. Não peça exames aleatoriamente. Converse com o tutor, traga ele para perto de você, mostre o quanto você se importa com o bichinho e que quer realmente fazer um bom trabalho e ajudá-los. Explique o porquê de cada exame e de cada medicamento, e se precisar, explique de novo e de novo. Arrume formas diferentes de mostrar a mesma coisa, pode ser com vídeos, textos, desenhos. Tente identificar a forma que cada tutor gosta mais. Ao final da consulta, peça para o tutor lhe falar o que ele entendeu e como é para dar a medicação. Fazendo ele falar, você consegue perceber se ele realmente entendeu o que você falou, e ainda faz com que grave ainda melhor as informações. Tudo isso aumenta muito a aceitação ao tratamento e a chance de obter sucesso terapêutico”.



BRUNA GABRIELA KAISER CORRÊA

Médica-veterinária, graduada pela PUCPR

(2010), pós-graduada em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais pelo Instituto Qualittas (2014), mestre em Ciência Animal com ênfase em produtos bioativos, pela UNIPAR (2018). Cursos nas áreas de nutrologia, medicina endocanabinoide (Cannabis medicinal), medicina tradicional chinesa, aromoterapia, mestre reiki e facilitadora de constelação familiar sistêmica. Faz atendimento volante e em domicílio em Balneário Camboriú e região (SC), e consultoria online para veterinários nas áreas de nutrição pet e cannabis medicinal. Criadora e professora do Método Power Vet, um curso que aborda todos os pilares da valorização, do empreendedorismo e da gestão para veterinários.

@veterinariabc.brunacorrea

@powervetofi cial