Nutrientes chave para pacientes cardiopatas

Por Raquel Sillas*


Com a evolução de pesquisas em cães e gatos, conseguimos confirmar os efeitos benéficos da nutrição para o paciente em várias etapas de vidas, como também em enfermidades. Em paciente com cardiopatias é possível minimizar os distúrbios metabólicos e, ao mesmo tempo, melhorar sua qualidade de vida.





Os problemas cardíacos representam a terceira causa de morte em cães. Sendo a prevalência de doenças cardiovasculares entre os cães a doença valvar mitral crônica (endocardiose) é de longe a anormalidade cardíaca adquirida mais comum, afetando mais de um terço dos cães pequenos acima de 10 anos de idade e os cães de raças grandes, especialmente machos, são predispostos a cardiomiopatia dilatada. Em felinos as cardiomiopatias hipertróficas são a causa mais comum.


Os problemas encontrados com mais frequência associados às doenças cardiovasculares que requerem modificação nutricional são retenção de líquidos associados à insuficiência cardíaca congestiva (ICC) crônica, hipertensão primária ou secundária, obesidade, caquexia e doenças do miocárdio relacionadas a uma deficiência nutricional específica (cardiomiopatia associada à taurina e carnitina e distúrbios eletrolíticos que pode predispor a arritmias cardíacas).


Nutrientes chave para os pacientes com cardiopatia


Taurina

A taurina é um aminoácido que desempenha a função de proteção do miocárdio e regulação da função contrátil sendo essenciais em gatos. Essa espécie apresenta uma capacidade limitada de sintetizar taurina a partir da cisteína e metionina. Os gatos utilizam a taurina exclusivamente para a conjugação de ácidos biliares, o que contribui para uma perda obrigatória de taurina. A diminuição da capacidade de sintetizar taurina e as contínuas perdas obrigatórias predispõem a baixas concentrações do mesmo. Desde 1987, a suplementação com taurina na maioria dos alimentos comerciais para gatos resultou em uma diminuição no número de casos de cardiomiopatia dilatada felina.


Gatos concentrações de taurina no sangue total consistentemente inferiores a 150 nmol / ml devem ser considerados deficientes em taurina. A Association of American Feed Control Officials (AAFCO) adota as concentrações de taurina no sangue total como parte da avaliação de protocolos de alimentação para gatos. E a aprovação desses protocolos devem requer uma concentração mínima de 200 nmol/ml em gatos.


Os cães são capazes de sintetizar quantidades adequadas de taurina. Mas, em ambas as espécies, para pacientes cardiopatas, preconizasse o uso da taurina, pois sua deficiência ainda não é bem compreendida. Sugere que a taurina participa da osmorregulação, modulação do cálcio, inativação de radicais livres, efeitos diretos nas proteínas contráteis e é um antagonista natural da angiotensina II.


Valores para taurina plasmática inferior a 20 a 30 nmol / ml (µmol / l) foram associadas à deficiência em estudos clínicos envolvendo cães e gatos. Gatos devem receber 250-500 mg/dia de taurina e cães de 500 a 1000 mg/dia. A porcentagem de taurina para alimentos com nível proteico de 28% com indicação preventiva para problemas cardíacos é de 0,1%, enquanto que em alimentação indicada para tratamento de cardiopatias é de 0,19% com 25% de proteína.


L-Carnitina

A L-carnitina é um pequeno quaternário solúvel em água e encontrada em altas concentrações no coração e músculo esquelético. Em cães, a L-carnitina é sintetizada no fígado a partir dos aminoácidos lisina e metionina. Um mecanismo de transporte pouco compreendido concentra L-carnitina em miócitos cardíacos e esqueléticos. Alguns cães com cardiomiopatia dilatada sofrem de deficiência de carnitina e respondem à suplementação. E relata ser benéfica por melhorar a produção de energia do miocárdio.


As quantidades encontradas em alimentos industrializados têm em média 200 mg de L-carnitina por quilo de alimento. No manejo das cardiomiopatias preconiza-se a adição de 50 mg/kg à terapia convencional em intervalos de 8 horas, embora se trate de prática muito onerosa e, por isso, não considerada como recomendação universal. Alimentos comerciais terapêutico para animais cardiopatas, incluem L-carnitina em níveis mais altos, em torno de 450 – 500 mg/kg. Em suplementações orais as doses podem variar de 500 a 2.000mg uma vez ao dia.


Potássio e magnésio

As concentrações séricas de eletrólitos são fatores importantes para avaliar em pacientes com doença cardiovascular. Hipocalemia, hipercalemia e hipomagnesemia, são complicações potenciais da terapia medicamentosa em pacientes com doença cardiovascular. Anormalidades do potássio ou magnésio podem: 1) causar arritmias cardíacas, 2) diminuir a contratilidade do miocárdio, 3) fraqueza muscular profunda e 4) potencializar efeitos adversos dos digitálicos e outros fármacos atuantes no sistema cardiovascular.


O magnésio é um importante mineral para todas as células musculares, especialmente as cardíacas, pois participa do processo de regulação da contração e relaxamento das fibras musculares miocárdicas. Acredita-se que o magnésio tenha efeito cardioprotetor em cães, devido ao seu efeito antiarrítmico e ações antitrombóticas; porém, ainda não se sabe uma dose segura em medicina veterinária. Infelizmente, a dosagem de potássio e magnésio pode não ser acessível. Nem sempre as concentrações séricas normais desse eletrólitos excluem a necessidade de suplementação pois podem ocorrer a presença de depleção corporal.


Os alimentos para cães e gatos com ICC devem conter pelo menos as mesmas quantidades de potássio e magnésio recomendadas para adultos manutenção 0,4 e 0,52% em DM de potássio, respectivamente, e 0,06 e 0,04% de DM de magnésio.


Ácidos graxos essenciais

Os efeitos anti-inflamatórios e antiarrítmicos do Ômega 3 (ω-3) podem ser benéficos na prevenção da perda de massa magra e no tratamento de arritmias diversas, como as ventriculares e a fibrilação atrial. Muitos cães com doenças cardiovasculares apresentam arritmias que podem, em algum momento, resultar em morte súbita. O uso de ω-3 pode ser indicado para os animais cardiopatas assintomáticos mesmo antes que a insuficiência cardíaca congestiva se desenvolva. O óleo de peixe tem sido utilizado com intuito de estabilizar a atividade elétrica do coração. Estudos relatam reduções da produção de citocinas na caquexia, arritmias cardíacas e infarto do miocárdio.

A dose oral indicada é 500 a 2000 mg por animal ao dia.


Sódio e cloreto

Historicamente, a redução de sódio sempre foi importante na ICC. Recentemente estudos relatam que a utilização dos inibidores da ECA diminui a atividade angiotensina II e aldosterona, promovendo a excreção de sódio (Na) e água pelos rins. Assim a excessiva restrição na dieta de Na pode ativar o sistema renina angiotensina aldosterona (SRAA) o qual leva a expansão de liquido extracelular elevando a pressão arterial.


Como a ICC está associada à retenção de sódio, cloreto e água, esses nutrientes são de importância primordial nos pacientes com doença cardiovascular. Algumas horas após a ingestão de altos níveis de sódio, cães e gatos normais excretam facilmente o excesso na urina. No início do curso da doença cardíaca, os pacientes podem perder essa capacidade de excretar o excesso de sódio. À medida que a doença cardíaca progride e a ICC.


Consequentemente, a capacidade de excretar excesso de sódio é severamente deprimida.

No passado, a retenção de sódio estava principalmente implicada na patogênese da ICC e algumas formas de hipertensão. Vários estudos examinaram a interação de sódio com outros íons, incluindo cloreto. A expressão completa da hipertensão sensível ao cloreto de sódio nas pessoas depende da administração concomitante dos dois elementos. A ingestão de sais de sódio sem cloreto pode não produzir hipertensão ou hipervolemia. O cloreto também pode atuar como vasoconstritor renal direto. Esses achados sugerem que sódio e cloreto em conjunto são nutrientes que demandam atenção nos pacientes com hipertensão e doença cardíaca.


A dose mínima (DM) recomendada para sódio e cloreto nos alimentos para cães adultos é de 0,08 e 0,12% de matéria seca (MS), respectivamente; alimentos para gatos é 0,068 para sódio e 0,096% para DM de cloreto. Em geral, os níveis de sódio em alimentos para doenças cardiovasculares devem ser restritos de 0,08 a 0,25% DM para cães e 0,07 a 0,3% DM para gatos.A água pode ser uma fonte potencial de sódio e cloreto. Dependendo da localização geográfica deve-se avaliar os níveis desses minerais.


Coenzima Q10

A Coenzima Q10 apresenta ação hipotensora, melhora a ação bioenergética mitocondrial e combate o estresse oxidativo nos miócitos. Acredita-se que suplementando a coenzima, com doses 30 mg para cães de pequeno porte e 90 mg para cães de grande porte duas vezes ao dia, melhora a eficiência metabólica miocárdica e fornece maior proteção antioxidante.


Vitamina E

É o maior antioxidante lipossolúvel no plasma, eritrócitos e demais tecidos, no qual sua principal função é o sequestro de radicais livres.

As alimentações específicas para pacientes com cardiopatias já apresentam ótimos níveis de Vitaminas E, não sendo necessários suplementações. Cuidados com a utilização de diuréticos, pois sua utilização causam perdas de vitamina E pela urina.

A vitamina E é administrada normalmente por via oral na sua forma ativa (alfa tocoferol), e tem demonstrado ter um efeito benéfico, por prevenir a oxidação de lipoproteínas de baixa densidade e promover dilatação da artéria coronária

A dose oral diária recomendada é de 200 a 500 UI por animal.



Avaliar o paciente e realizar exames rotineiramente é importante para um bom planejamento nutricional do paciente cardiopata. Embora ainda não haja evidências concretas que os alimentos retardem a progressão dessas patologias o uso destes nutrientes pode auxiliar no retardo da progressão nas cardiopatias. Custos altos ainda podem interferir em complementação de tratamentos, porém quanto vale a qualidade de vida do paciente?





Autora

*Raquel Sillas

Médica-veterinária, graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR)

Sócia-Proprietária do Hospital Veterinário Batel (Curitiba/PR)

raquelsillas@yahoo.com.br












Artigo publicado na Edição de Novembro/2019 da Revista Vet&Share.

Confira em: Edição 59

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