Nutrição e enteropatia crônica

Além do efeito direto da dieta no organismo, há um efeito indireto considerável: as influências dietéticas sobre a microbiota intestinal. No entanto, ainda são poucos os estudos clínicos controlados que avaliam manipulação dietética específica na prevenção ou manejo de doenças gastroentéricas em cães e gatos


Por Flavio Lopes da Silva*


Possivelmente, nenhum outro sistema no organismo é tão diretamente afetado pela nutrição quanto o trato gastrointestinal. Fatores como horário e frequência de alimentação, via de alimentação e composição nutricional da dieta têm profunda influência na saúde intestinal e, consequentemente, sistêmica. Além do efeito direto da dieta no organismo, há um efeito indireto considerável: as influências dietéticas sobre a microbiota intestinal. No entanto, ainda são poucos os estudos clínicos controlados que avaliam manipulação dietética específica na prevenção ou manejo de doenças gastroentéricas em cães e gatos.


A enteropatia crônica é composta por algumas doenças, como a doença inflamatória intestinal (DII), insuficiência pancreática exócrina, linfangiectasia, entre outras. Neste texto, vamos focar principalmente na DII, caracterizada pela manifestação de sintomas gastrointestinais, como vômito, fezes mal formadas, borborigmos, perda de apetite e emaciação crônica.


Concomitante ao tratamento prescrito pelo médico-veterinário, é entendido por profissionais da nutrição veterinária que alguns pontos devem ser considerados para um manejo dietético adequado, entre eles a forma de apresentação do ingrediente proteico, as fontes de gorduras, as suplementações de vitaminas, principalmente hidrossolúveis, e o uso de fibras que auxiliam na manutenção da eubiose do intestino afetado.



Crédito: divulgação


Com relação à proteína dietética, existem hoje duas estratégias nutricionais que podem auxiliar no tratamento. A primeira é o uso de fontes de proteínas hidrolisadas, ou seja, peptídeos provenientes de uma macromolécula que sofreu lise enzimática previamente. Os pequenos peptídeos não são suficientes para gerar respostas inflamatórias ou estimular respostas de hipersensibilidade. Outra estratégia é o uso de proteínas intactas, porém inéditas. Temos como exemplo as proteínas provenientes de cordeiro, coelho, jacaré, canguru, rã ou até mesmo alimentos convencionais (frango, carne bovina e carne suína), desde que o animal nunca tenha entrado em contato previamente. Peixes não são recomendados, pois algumas espécies, como os elasmobrânquios, possuem alta concentração de histamina após o abate.


Um ponto interessante são as fontes de carboidratos. Muitos profissionais indicam a alteração do tipo de carboidrato com base na fração proteica existente naquele ingrediente.

Em relação à gordura dietética, é importante que o alimento contenha níveis aumentados de ácidos graxos da família ômega 3, como o ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosaexaenoico (DHA), normalmente provenientes de óleo de peixe presente nos alimentos. Esses ácidos são importantes para modular a resposta inflamatória local e sistêmica, visto que quando se tem níveis maiores na dieta, a concentração de eicosanoides menos inflamatórios é aumentada e o animal tende a responder melhor ao tratamento.


Concomitante ao tratamento prescrito pelo médico-veterinário, é entendido por profissionais da nutrição veterinária que alguns pontos devem ser considerados para um manejo dietético adequado

Quando o animal está com vômitos ou diarreia, tende a perder muita água e, consequentemente, as vitaminas que são solúveis em meio aquoso. Por isso, as vitaminas hidrossolúveis são importantes, principalmente a cianocobalamina, ou vitamina B12. Quando há alguma lesão no intestino, principalmente na região do duodeno, a absorção dessa vitamina é prejudicada, já que o sítio ativo de absorção da cianocobalamina é no duodeno.


Ainda há dúvidas sobre como a cianocobalamina realmente é absorvida, pois em cães e gatos a suplementação de cobalamina sempre foi realizada por via parenteral nos casos de enteropatias, acreditando-se que o intestino não estaria apto a realizar adequada absorção pela via enteral. Porém, novos estudos demonstraram que em diversas enteropatias a suplementação oral de cobalamina é tão eficaz quanto a suplementação por via parenteral.

Por fim, temos as fibras dietéticas, focadas principalmente em prebióticos, que são carboidratos fermentáveis não digeridos pelo trato gastrointestinal e com resistência ao pH ácido do estômago. Essa característica proporciona sua passagem ao intestino grosso de forma intacta para que sejam capazes de ter seu conteúdo fermentado pela microbiota presente no intestino e, como consequência, a produção de ácidos graxos de cadeia curta (ácido acético, ácido propiônico e ácido butírico), que promovem o crescimento de bactérias benéficas.


Esses ácidos graxos desempenham um papel importante na manutenção da saúde do intestino, visto que os colonócitos utilizam preferencialmente o butirato como fonte de energia, quando comparado ao uso de glicose. Mas vale lembrar que eles devem ser usados com moderação, pois fermentar demais o intestino pode não ser uma estratégia tão eficaz e ainda piorar a sintomatologia do animal.


Alguns são os pontos a serem considerados durante a alimentação de animais com enteropatias crônicas, mas sempre lembrando que o mais importante é oferecer um alimento completo, balanceado e de alta qualidade, a fim de proporcionar melhor saúde intestinal.




*Por Flavio Lopes da Silva

Médico-veterinário, MSc. do Departamento de Capacitação Técnico-Científica da PremieRpet®