Manejo da dor em cães e gatos

A American Animal Hospital Association atualiza guideline “2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats”. Envolver o tutor no processo de avaliação da dor é um dos destaques. O médico-veterinário, Dr. Paulo Roberto Klaumann comenta os principais tópicos



Por Mariana Vilela, da redação


A dor é definida pela International Association for the Study of Pain (IASP) como uma “experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou relacionada à lesão real ou potencial dos tecidos, ou relatada como se uma lesão existisse, e cada indivíduo aprende a utilizar esse termo através das suas experiências”. E se na medicina avaliar a intensidade e tratar a dor já é um desafio, na medicina veterinária o desafio é ainda maior com pacientes que não falam. Apesar do tratamento da dor em animais ter evoluído muito nos últimos anos, diagnosticar a dor e sua intensidade é algo complexo.


O médico-veterinário Paulo Roberto Klaumann, especializado em anestesiologia, mestre e doutor em Ciências Veterinárias, sócio proprietário da PRK Anestesiologia Veterinária e responsável pela Serviço de Anestesiologia e Controle da Dor do Hospital Veterinário Clinivet (Curitiba/PR), explica que a dor hoje pode ser considerada uma doença paralela à causa de base. Por exemplo, se há uma doença ortopédica como artrose e essa doença cursa com dor, então são duas doenças, o quadro ortopédico e a dor. A dor não tratada ou tratada de forma incorreta pode tornar-se crônica. Quadros de dor que se perpetuam por mais de três meses são considerados casos de dor crônica, uma doença instalada que cujo tratamento passa a ser mais complexo. “E esse quadro de dor, seja o paciente portador de dor aguda ou crônica, faz com que aconteça uma série de ações fisiológicas, como aumento da frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão arterial. Além disso, há a liberação de uma série de hormônios relacionados ao estresse como cortisol, adrenalina etc. Então, o sistema como um todo começa a trabalhar com uma condição diferente, em total desequilíbrio. Isso leva a taxas metabólicas alteradas, retardo de cicatrização e o comprometimento de outros órgãos. Todo esse estresse gerado leva complicações para esse paciente”.



Crédito: iStock-Zontica


Guideline AAHA atualizada

E para auxiliar os veterinários com o manejo da dor em cães e gatos, a American Animal Hospital Association atualizou recentemente a diretriz “2022 AAHA Pain Management Guidelines for Dogs and Cats”. Confira a seguir entrevista completa com o Dr. Paulo Roberto Klaumann sobre os principais tópicos atualizados.


Revista Vet&SHare: O que podemos destacar nas atualizações dessa edição da guideline?


Paulo Roberto Klaumann: Um dos tópicos mais importantes dessa diretriz é com relação ao tratamento da dor ir além do juramento que os veterinários fazem ao entrar na profissão, que é evitar o sofrimento de qualquer natureza de qualquer espécie. O tratamento da dor hoje vai além desse juramento, pois o paciente que se beneficia de um bom tratamento analgésico, seja ele para um perioperatório ou para dor crônica, consegue se recuperar mais rápido desse período de convalescença ou de uma cirurgia por exemplo e, no caso de uma dor crônica, conseguimos estabelecer mais qualidade de vida.


V&S: E sobre diagnóstico, o que há de novo?


PRK: Um dos pontos mais complexos é o diagnóstico da dor. O paciente não fala e temos que investigar para descobrir se há dor. Obviamente o tratamento precisa ser estabelecido por um médico-veterinário, mas o diagnóstico não necessariamente.


Nessa nova diretriz é destacada a importância do treinamento de uma equipe. Por exemplo, dentro de uma estrutura hospitalar ou de uma clínica onde tenham pacientes internados, procurar fazer um treinamento com sua equipe, seja de enfermagem, de estagiários, para que esse pessoal tenha condições de entender a manifestação clínica da dor em animais.


Achei muito interessante a diretriz abordar a dor dessa forma. Não apenas a dor em um momento pontual, mas em todo o contexto. Uma abordagem mais proativa, e não apenas baseada em danos. Perceber potenciais doenças que cursam com dor e tratar essa dor já de forma preemptiva.


O médico-veterinário que é responsável por instituir o tratamento muitas vezes só tem contato com o paciente na hora da consulta e, muitas vezes, nesse momento o paciente não está ambientado, está em local com cheiros, barulhos e pessoas diferentes o que gera ansiedade e desconforto. Então é importante ficar com esse paciente por um período um pouco mais longo para ver se consegue criar um clima um pouco mais amistoso para essa avaliação.


V&S: O tutor também tem um papel importante no diagnóstico segundo a guideline. Como o tutor pode participar do processo?


Além da abordagem multidisciplinar entre as equipes citada acima, a diretriz ressalta a importância do papel do tutor nesse diagnóstico, porque ninguém melhor do que o tutor para conhecer seu pet. O veterinário pode orientar esse tutor em como avaliar a dor em casa, que é mais bem feita do que no ambiente hospitalar.


Assim, esse tutor pode trazer informações como, por exemplo, se ele está mais quieto, mais agitado, se parece enjoado, se está se alimentando normalmente ou não etc. Essa avaliação e informações do tutor são muito importantes. A própria diretriz orienta os veterinários a oferecer aos tutores de forma mais simplificada as escalas para avaliar o pet em casa com base nas questões. Dessa forma é possível avaliar melhor de como é na clínica e como é em casa.


V&S: Há diferenças ao avaliar a dor em cães e em gatos?


Entre as espécies a manifestação da dor também é diferente. O cão quando está com dor, procura chamar a atenção do tutor, ele pode ficar mais quieto, ou querer mais companhia, ou ainda mostrar lambendo a parte onde dói. O gato já é bem diferente, ele é um predador na natureza e se ele se sentir vulnerável, passa a se ver como uma presa e não quer mostrar que está com dor.


E o isso muda também conforme as raças, por exemplo, o comportamento de um pinscher será bem diferente de um dog alemão. Compreender as particularidades raciais pode influenciar a abordagem, o diagnóstico e o tratamento da dor em raças tão diversas. É importante levar em consideração as particularidades de cada raça.

Para os felinos foi lançada recentemente uma ferramenta que é a escala de expressão facial de felinos - Feline Grimace Scale (Escala Facial Felina) - desenvolvida pela Universidade de Montreal (Quebec, Canadá) em 2019 e conta com um aplicativo para celular e o próprio tutor pode baixar e pontuar as expressões faciais do seu gato. Achei muito interessante para acompanhar se o tratamento da dor crônica do gato está funcionando.


As posições de orelhas, aberturas dos olhos, posição do bigode, todo esse conjunto mostra a expressão facial de um gato feliz ou triste e correlacionar a dor. O app possui uma aba para ensinar como usá-lo, seja por veterinário, enfermeiro, estagiário ou tutor.


V&S: A guideline também destaca a abordagem preemptiva. Como isso funciona na rotina clínica?


É um item da diretriz que vale destacar, pois é sobre a importância de abordar a dor de forma preventiva (ou preemptiva) e não apenas depois que ela já se instalou. Assim que houver a suspeita de alguma doença ou pós uma cirurgia, que obviamente curse com dor, iniciar o tratamento analgésico e, de preferência, com fármacos que atuem em pontos diferentes da via de percepção, o que chamamos de nocicepção. Essa abordagem com vários fármacos que atuam em pontos diferentes é chamada de tratamento multimodal, que utiliza o que cada fármaco tem de desejável em determinado ponto da via de decodificação dessa informação para poder estabelecer o melhor protocolo. Há uma droga que vai atuar na parte de transmissão da informação, outra que vai trabalhar na parte de modulação. Então associamos esses fármacos para ajustar o melhor tratamento para o paciente.


Há também as terapias alternativas como fisioterapia, acupuntura, terapia por frio, modificações no meio ambiente como deixar o local em que o paciente vive mais adequado e preparado, a dieta também é muito importante. Imagine um labrador com displasia e obeso. O tratamento da dor é multidisciplinar.


V&S: Pode nos dar mais detalhes de como funciona o tratamento multimodal?


Na fisiologia básica o sistema nervoso central não sabe o que é um corte de faca, uma picada de abelha ou um atropelamento, ele reconhece apenas informações elétricas, que são transmitidos pelas células nervosas. Então uma queimadura, frio extremo, pancada, picada, isso tudo são estímulos térmicos e mecânicos que são transformados em impulsos elétricos e, que são transmitidos para os centros superiores de processamento da informação, medula espinhal e o cérebro. Temos fármacos hoje que atuam nessa transformação do estímulo mecânico no impulso elétrico, fármacos que atuam no bloqueio da transmissão da informação, como é o caso do anestésico local, fazer uma anestesia regional por exemplo, bloqueia a informação e a impede de chegar no sistema nervoso central.


Cada fármaco tem um mecanismo de ação para poder produzir o seu efeito analgésico. A primeira regra é não misturar drogas da mesma classe farmacológica. Por exemplo, administrar um anti-inflamatório meloxicam com um carprofeno, pois são dois anti-inflamatórios e atuam no mesmo local. Faz mais sentido utilizar um anestésico local, um anti-inflamatório e um opioide, ou seja, três drogas com classes farmacológicas diferentes que se completam, uma abordagem multimodal.


A diretriz pontua várias classes farmacológicas que podem ser incorporadas hoje. Temos considerado o tripé da analgesia, as três drogas básicas que são: anti-inflamatório, o anestésico local e o opioide. Mas sabemos que além dessas três, há vários adjuvantes que podem ser incorporados comoalfa-2 agonistas, antagonistas de receptor NMDA, antidepressivos etc. O arsenal é muito grande.


O que chamou atenção também na diretriz foi a importância de se trabalhar com bloqueios regionais, que é a minha maior área de atuação. Temos visto como é interessante na casuística aqui do hospital, principalmente no perioperatório, onde atuo mais, os pacientes que fazem a cirurgia com essa abordagem preemptiva de receber o bloqueio regional da cirurgia e aquele paciente que passa pela cirurgia sem o bloqueio. Vemos na prática que a recuperação é bem mais rápida.


No final da diretriz destaque para os cinco principais pontos para a eficácia do tratamento analgésico:


1) Ser proativo, preparar a equipe veterinária e entender aquela doença que está em curso como um potencial gerador de dor;

2) Usar as ferramentas recomendadas pela diretriz (Escalas);

3) Orientar o tutor e fazer com que ele participe ativamente do processo, pois ele é a principal pessoa que pode entender o comportamento do pet;

4) A abordagem preemptiva e multimodal (Várias classes farmacológicas);

5) Reavaliar o paciente com a frequência necessária de cada um para poder ajustar o tratamento.



Paulo Roberto Klaumann

Possui graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Paraná (1997), mestrado em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal do Paraná (2007), especialização Lato Sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV (2011) e doutorado em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal do Paraná (2017). É sócio proprietário da PRK Anestesiologia Veterinária e responsável pela Serviço de Anestesiologia e Controle da Dor do Hospital Veterinário Clinivet (Curitiba/PR) desde 1997. Autor do livro Anestesia Locorregional em Pequenos Animais e outros capítulos de livros sobre anestesiologia veterinária.


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