Hipersensibilidade alimentar


Por Cecilia Sartori Zarif Hudson*

Resumo

A reação adversa a alimentos é uma resposta clínica anormal à ingestão de um determinado alimento. Essa reação pode ou não ser de origem imunológica. Aquelas não associadas a causa imunológica são conhecidas por intolerância alimentar, enquanto a hipersensibilidade alimentar está associada a uma resposta imunológica ao alimento, onde há produção de anticorpos específicos.

Importância

As dermatopatias de origem alérgica incluem, entre elas, a hipersensibilidade alimentar, ou dermatite trofoalérgica, e no cão é a terceira com maior ocorrência, logo após a dermatite alérgica à picada de pulgas e à dermatite atópica (MULLER et al., 1989; SCOTT et al., 2001). É caracterizada por ser uma reação cutânea pruriginosa, não-sazonal e que pode ser desencadeada por componentes antigênicos presentes em qualquer alimento. A fisiopatologia ainda não está bem esclarecida e acredita-se que haja envolvimento das reações de hipersensibilidade dos tipos I, III ou IV e que fontes usuais de proteína e carboidratos da alimentação constituem os principais alergênicos (GROSS et al., 2005). Embora a resposta alérgica possa acometer diferentes sistemas orgânicos, as manifestações cutâneas são as chamam a atenção dos tutores dos animais. O diagnóstico final é feito através da dieta de eliminação seguido pela exposição provocativa.

Predisposição

As raças mais predispostas são: Golden Retrivier, Labrador, Cocker Spaniel, Shar Pei, Schnauzer miniatura, Collie, Pastor Alemão, Poodle, West White Terrier, Boxer, Dachshund, Dálmata, Lhasa Apso, German Shepherds e Softcoated Wheaten Terrier (ROSSER, 1993). Embora seja mais comum no cão, também pode se manifestar nos gatos. Não há predisposição sexual, no entanto, com relação à idade, Rosser (1993), comenta que 33% dos casos ocorrem em cães com menos de um ano de vida e Harvey (1993), complementa que existe maior incidência dos casos em cães com menos de um ano de idade. Embora, a maioria dos cães com hipersensibilidade alimentar manifesta sinais clínicos antes de 3 anos de idade, a doença pode ocorrer em qualquer idade (DEMANUELLE, 2004).

Fisiopatologia

A hipersensibilidade é caracterizada por reações provenientes de resposta imune protetora, porém de forma exacerbada e prejudicial contra determinado antígeno (GORMAN, 1997; OLIVRY et al., 2001). A reação alérgica ocorre pela produção de imunoglobulinas IgE e IgG e sensibilização dos linfócitos T auxiliares. Os anticorpos IgE se ligam aos mastócitos e basófilos teciduais, promovendo assim, a degranulação mastocitária e a liberação de mediadores como a histamina, serotonina, proteinases e proteoglicanos entre outros, que são responsáveis por promover o prurido e inflamação cutânea. Os principais alimentos considerados alergênicos a esses pacientes com hipersensibilidade são carne bovina, arroz, carne de frango (SALZO; LARSSON, 2009)

Diagnóstico

O histórico normalmente é inespecífico, porém com grande importância, pois a hipersensibilidade alimentar não é sazonal e se faz necessário um relato completo do manejo alimentar do paciente para identificação dos tipos de proteínas, carboidratos e outros possíveis alérgenos, que já entrou em contato. A manifestação dermatológica que predomina é o eritema e o autotraumatismo secundário ao prurido. As lesões secundárias podem incluir alopecia, escoriações, pápulas, crostas, foliculite, liquenificação, hiperpigmentação, infecções secundárias, seborreia e otite externa. A localização normalmente está em face, porção distal dos membros e orelhas, sendo semelhantes aos observados em quadros de atopia. Testes diagnósticos como o teste intradérmico com extratos de alimentos, teste RAST (busca por anticorpos IgE específicos no sangue) e o teste de ELISA, são considerados não confiáveis. O diagnóstico clínico será obtido com o uso de uma dieta de eliminação hipoalergênica e a realização posterior do desafio com a dieta usada originalmente.

Diagnóstico diferencial

Para um diagnóstico mais preciso é importante a exclusão de dermatites por ectoparasitas (puliciose, ixodidiose, escabiose, demodiciose), dermatite alérgica de contato, piogênicas (foliculite bacteriana superficial, síndrome foliculite-furunculose-celulite), hormonais seborreicas e outras.

A dieta de eliminação caseira para o diagnóstico de hipersensibilidade alimentar permite fontes controladas de proteína e carboidrato, e exclui a possibilidade de sensibilidade a aditivos, conservantes e corantes. Em contrapartida o crescimento das indústrias de rações comerciais traz para o mercado pet opções com boa qualidade e maior variedade, também com fonte única de proteína e carboidratos, permitindo também seu uso para diagnóstico e manutenção a longo prazo desses pacientes alérgicos. Outra opção são as dietas comerciais com proteína hidrolisada, com objetivo de reduzir o tamanho das partículas alimentares antigênicas, e reduzir sua exposição ao sistema imunológico (SCOTT et al., 2001; KENNIS, 2006; LOEFFLER et al., 2006; PUIDGEMONT et al., 2006).

Tratamento

Um alimento é considerado hipoalergênico quando o animal nunca teve contato com ele anteriormente. O tratamento se baseia na alimentação estrita com fontes inéditas de proteínas e carboidratos de fácil digestão. Tipos de proteínas que não são completamente digeridas, possuem um potencial para estimular a resposta imune. Proteínas de fácil digestão apresentam aminoácidos livres e peptídeos com menor potencial alergênico. A recomendação do uso da dieta hipoalergênica é de 6 a 12 semanas e a resolução dos sinais clínicos sugere a existência da hipersensibilidade alimentar, de modo que a confirmação é através do teste de provocação quando volta a se alimentar com a dieta inicial e ocorre recidiva do quadro alérgico.

A proteína hidrolisada com seu baixo peso molecular causa baixa estimulação imunogênica e apresenta alta digestibilidade independentemente da sua fonte (normalmente é extraída de aves ou soja). O objetivo da hidrólise é fracionar a proteína em pequenos peptídeos com menor peso molecular, e assim reduzir o estímulo imune.

O preparo da dieta caseira deve ser baseado em um número limitado de proteína e carboidrato. Sua importância está relacionada com o controle dos ingredientes presente na dieta. A limitação da dieta caseira é principalmente a praticidade do preparo, especialmente se for para cães de raças grandes. Inicialmente é uma dieta desbalanceada e pode ser um problema quando seguida por muito tempo ou quando se trata de um filhote, pois na maioria das vezes, apresentam excesso de proteína, baixos teores de ferro e taurina e desproporção da relação de cálcio e fósforo (ROUDEBUSH; COWELL, 1992).

As rações comerciais também podem cumprir com o seu papel. Rações com proteínas exclusivas de determinados ingredientes são aceitas para o tratamento.

Alérgenos alimentares

Segundo Jeffers et al. (1996), seu estudo identificou carne bovina e soja como alérgeno para cães, comparando com outras cinco proteínas. Dessa maneira, a hipersensibilidade plurialergênica é constante nos cães. No estudo de Paterson (1995), a carne bovina foi responsável por 65% dos casos de alergia, seguindo-se do trigo com 25%, do ovo com 20%, da carne ovina com 25% e da carne de frango com 10%. Nesse caso, 35% dos cães apresentaram reação alimentar a mais de um antígeno. Nenhum cão apresentou alergia a peixe, a qual poderia ser indicada para dieta de exclusão de alergia alimentar com manifestações cutâneas.

Orientações

É importante para que o tratamento ocorra de forma adequada, que o tutor e toda a família sigam as instruções do veterinário fornecendo apenas água e o alimento prescrito, sem petiscos. Não permitir que o paciente tenha acesso a outros comedouros, e ter paciência durante o tratamento pois muitas vezes a resposta clínica para início da melhora pode demorar pelo menos 6 semanas.

Outras informações / Conclusão

O preparo da dieta de exclusão é um processo trabalhoso, porém nos últimos anos observa-se no mercado a introdução de dietas comerciais com restrição de fontes proteicas e carboidratos. Algumas são constituídas por ingredientes proteicos hidrolisados, permitindo uma opção para o diagnóstico e mesmo para manutenção dos animais comprovadamente alérgicos.

Referências

DEMANUELLE, Terese C. Hipersensibilidade Alimentar. In: ETTINGER, Stephen J., FELDMAN, Edward C. Tratamento de Medicina Interna Veterinária – Doenças do Cão e do Gato. 5. ed. v. 2. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p. 2076, 2004.

GORMAN, N. T. Imunologia. In: ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de medicina interna veterinária. 4.ed. São Paulo: Manole, v. 2, p. 2735-2765, 1997.

GROSS, T.L.; IHRKE, P.J.; WALDER, E.J. et al. Food Allergy. In: Skin diseases of the dog and cat. Clinical and histopathologic diagnosis. Oxford: Blackwell Science, p.206-207, 2005.

HARVEY, RG. Food allergy and dietary intolerance in dogs: a report of 25 cases. Journal of Small Animal Practice, n. 34, p. 175-79, 1993.

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KENNIS, R.A. Food allergies: Update of pathogenesis, diagnoses and management. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v.36, p.175-184, 2006.

LOEFFLER, A.; SOARES-MAGALHÃES, R.; BOND, R. et al. Retrospective Analysis of case series using home-prepared and chicken hydrolyzate diets in the diagnosis of adverse food reactions in 181 pruritic dogs. European Society of Veterinary Dermatology. Journal Compilation, v.17, p.273-279, 2006.

MULLER, G.H.; KIRK, R.W.; SCOTT, D.W. Food hypersensitivity (Food Allergy). In: Small animal dermatology. Philadelphia: W.B. Saunders, p.470-474, 1989.

OLIVRY, T.; DEBOER, D. J.; GRIFFIN, C. E.; HALLIWELLD, R. E. W.; HILLD, P. B.; HILLIERE, A.; MARSELLAF, R.; SOUSAG, C. A. The ACVD task force on canine atopic dermatitis: forewords and lexicon. Veterinary Immunology and Immunopathology, Amsterdam, v. 81, n. 3-4, p. 143-146, 2001.

PATERSON, S. Food hypersensitivity in 20 dogs with skin and gastrointestinal signs. Journal of Small Animal Practice, n. 36, p. 529-534, 1995.

PUIGDEMONT, A.; BRAZIS, P.; SERRA, M. et al. Immunologic responses against hydrolyzed soy protein in dogs with experimentally induced soy hypersensitivity. American Journal of Veterinary Research, v.67, p.484-488, 2006.

ROSSER, EJ. Diagnosis of food allergy in dogs. Journal of the American Veterinary Medical Association, n. 203, p. 259-262, 1993.

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SALZO, P. S.; LARSSON, C. E. Hipersensibilidade alimentar em cÃes. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, v.61, n. 3, p.598-605, 2009.

SCOTT, D.W.; MILLER Jr., W.H.; GRIFFIN, C.E. Canine food hypersensitivity. In: Small animal dermatology. Philadelphia: W.B. Saunders, p.624-627, 2001.

*Cecilia Sartori Zarif Hudson

CRMV 28274-SP

Médica-veterinária especializada em Nutrição Clínica

Artigo publicado na edição 28 da Revista Veterinary&Science

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