Desafios na atuação da medicina veterinária de urgência e emergência

Por Diogo da Motta Ferreira*

É comum recebermos avisos de novos cursos sobre emergência e urgência veterinária ou ainda participarmos de eventos acadêmicos/científicos voltados a área, mas na verdade essa especialidade é relativamente nova, portanto, ainda existem muitos desafios enfrentados diariamente pelos profissionais que se dedicam a esses pacientes.

O atendimento de urgências e emergências requer um conhecimento técnico específico, não podemos dizer que esse conhecimento é detido apenas por especialistas da área, mas é importante notar que, na maior parte dos currículos de graduação das universidades que oferecem o curso de medicina veterinária, não encontramos uma disciplina específica para o estudo das emergências. Muitas vezes, essas situações clínicas são discutidas como trechos de outras disciplinas como Clínica Cirúrgica ou Clínica Médica, e isso deixa de fora a discussão de temas muito importantes.



Imagem deskeezeporPixabay

Esse cenário, no entanto, vem mudando. Muitas instituições de ensino superior já estão adotando uma disciplina, seja como grade curricular ou optativa, de emergência. Além disso, cursos de pós-graduação e atualização veterinária têm apostado muito nessa área, disponibilizando cursos e conteúdo no formato presencial ou como ensino a distância, que tem sido correspondido com uma boa aceitação pelos alunos.

Todos sabemos que os insumos e equipamentos necessários para o atendimento veterinário têm um custo de investimento por parte dos profissionais. A área de emergência não é uma exceção, entretanto, o atendimento inicial requer poucos insumos ou equipamentos, após esse atendimento inicial é que o investimento realmente é mais impactante.


“Outro fator a ser considerado e que muitas vezes acaba sendo esquecido é a carga emocional dessa especialidade”


Equipamentos de análises laboratoriais, de monitoração como monitores multiparamétricos, hemogasometria, ventilador mecânico, entre outros, aumentam o repertório para diagnóstico e terapias, mas requerem um investimento inicial importante, além, obviamente, de qualificação técnica para analisar todas as avaliações obtidas e manejar os equipamentos. Não é necessário obter todos esses equipamentos para realizar o atendimento inicial, mas é importante compreendermos as limitações da nossa rotina e, quando necessário, indicar que o prosseguimento do tratamento seja realizado em outro local com mais estrutura. Em contrapartida, os centros de atendimento especializados devem manter o médico-veterinário que indicou a terapia ciente da evolução do paciente e sobre as necessidades de mudanças terapêuticas.


Outro fator a ser considerado e que muitas vezes acaba sendo esquecido é a carga emocional dessa especialidade. O médico-veterinário, atuante nas áreas de clínica, cirurgia e anestesiologia, convivem com a luta entre a vida e morte. Os especialistas da área de urgência e emergência veterinária também convivem com essa realidade. Apesar do conhecimento estar crescendo na área e de que é cada vez mais fácil o acesso a novas tecnologias, um fato permanece imutável: não é possível salvar todos os pacientes, apesar de nossos esforços. Aprender a lidar com esse fardo faz parte da rotina dos especialistas dessa área. Muitos profissionais embarcam em longas jornadas de trabalho esgotando-os fisicamente, mas nada comparado ao peso das perdas de pacientes ao longo dos anos de trabalho. Além de oferecer um serviço eficiente, os centros de atendimento especializados precisam considerar o desgaste emocional de seus profissionais e promover ações que melhorem seu ambiente de trabalho. Existem iniciativas inovadoras, que vão desde manter uma área recreativa que pode ser utilizado em intervalos durante a jornada de trabalho, a acompanhamento da equipe por psicólogos. Essas ações deverão ser cada mais frequentes visto o aumento da rotina da emergência, as longas jornadas de trabalho da área e a constante necessidade de atualização.



Apesar de ser uma especialidade relativamente nova, a medicina de urgência e emergência já demonstrou sua importância conquistando um grande grupo de alunos de graduação e profissionais da medicina veterinária entusiastas pela área. Estamos vivenciando o início do crescimento dessa especialidade, sendo que as expectativas futuras são muito promissoras, principalmente com a chegada de novas tecnologias cada vez mais rápido, o aumento da velocidade de compartilhamento de informação sobre pesquisa, a iniciativa de grupos de estudos que auxiliam na divulgação do conhecimento da área e a popularização de equipamentos necessários para diagnósticos e tratamentos mais específicos.

Caso você seja um médico-veterinário que tem pouca experiência com os novos conceitos da medicina de urgência e emergência vale a pena se atualizar, pois, em curto prazo, a capacidade de avaliar uma hemogasometria arterial ou os conhecimentos básicos para realização de uma ventilação mecânica não serão mais um diferencial de mercado, mas sim uma competência necessária a todos os profissionais.


*Autor Diogo da Motta Ferreira

Médico-veterinário pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Professor na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP)

Artigo publicado na editoria VeteduKa da Edição de Março/2020 da Revista Vet&Share. Confira texto na íntegra em: Edição 63


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