Controle de endoparasitas e ectoparasitas em cães e gatos

O que devemos saber e como orientar os tutores no século XXI?




Por Fabio Navarro Baltazar*



Resumo

A frequente atualização do médico-veterinário na abordagem das infecções parasitárias em cães e gatos representa capítulo fundamental no exercício da clínica médica, uma vez que este profissional atua, ainda, na profilaxia de diversas zoonoses. Além disso, o crescente destaque que os animais de companhia vêm ganhando na vida de seus tutores nos últimos anos acaba por exercer pressão acerca da necessidade de reciclagem dos conhecimentos, tanto do manejo profilático, quanto das diferentes terapias atualmente disponíveis para as principais endoparasitoses e ectoparasitoses em cães e gatos. Logo, o presente artigo tem por objetivo abordar alguns dos principais fármacos disponíveis no mercado veterinário para o controle integrado das parasitoses nas referidas espécies.


Crédito foto: iStock - MichalRenee


Introdução

O estudo das doenças parasitárias na clínica médica de cães e gatos apresenta-se de suma importância tanto para a manutenção do bem-estar do paciente, quanto para a profilaxia de diversas zoonoses aos tutores, haja vista que muitos dos patógenos envolvidos nas infecções parasitárias não são específicos das espécies acima referidas. Neste contexto, a aproximação dos animais de companhia aos seus tutores, observada nos últimos anos, reforça a necessidade do conhecimento das zoonoses, assunto abordado tanto pela medicina humana quanto pela medicina veterinária e, que traz à luz a necessidade do conhecimento das principais medidas terapêuticas e profiláticas das parasitoses nos animais de companhia, aqui com destaque para os cães e gatos.


Do ponto de vista ecológico, o parasitismo exerce influência direta nos ecossistemas, especialmente por meio da regulação das densidades populacionais, alterando diretamente a dinâmica das comunidades. Os parasitas melhores adaptados tendem a causar danos não letais aos seus hospedeiros, ao menos em curto prazo, para assim poder manter o consumo de suas reservas energéticas, fato que descreverá uma íntima relação entre si. Logo, dentro da ampla definição do termo parasita, estes podem variar desde bactérias e vírus, até organismos mais complexos, eucariontes, como helmintos, protozoários, artrópodes e alguns vertebrados. Por este motivo, uma das classificações dos parasitas se relaciona com sua localização no hospedeiro, fato que caracteriza os endoparasitas, presentes nos mais diversos sistemas orgânicos e alimentando-se diretamente ou indiretamente do organismo, e os ectoparasitas, residentes da superfície externa de seu hospedeiro. Aqui vale lembrar a importância na distinção dos termos endoparasitas e enteroparasitas, onde o primeiro define as parasitoses internas, fato que pode incluir o parasitismo de diversos sistemas, e segundo, apenas os parasitas do trato gastrointestinal.


Os endoparasitas podem ser subdivididos naqueles encontrados no sistema circulatório (como os nematódeos Acanthocheilonema reconditum e Dirofilaria immitis), no trato gastrointestinal (os cestódeos Dipylidium caninum, Echinococcus spp. e Taenia spp, nematódeos Ancylostoma caninum, Ancylostoma tubaeforme, Uncinaria stenocephala, Physaloptera spp., Toxascaris leonina, Toxocara canis, Baylisascaris procyonis e Trichuris vulpis, e protozoários Giardia spp., Isospora spp., Toxoplasma gondii e Cryptosporidium spp.), no trato respiratório (nematódeos Aelurostrongylus abstrusus e Eucoleus aerophilus, e o trematódeo Paragonimus kellicotti), e no sistema urinário, a exemplo dos nematódeos Pearsonema (Capillaria) feliscati, Pearsonema (Capillaria) plica, e Dioctophyma renale.


Os ectoparasitas, por sua vez, incluem uma extensa lista de artrópodes, subdivididos na subclasse Acarina (carrapatos e ácaros) e na classe Insecta (pulgas, piolhos, moscas, mosquitos e flebotomíneos). A importância médico veterinária dos ectoparasitas se dá, principalmente, pela ocorrência de lesões cutâneas (as quais podem permitir o desenvolvimento de infecções bacterianas secundárias), respostas imunopatológicas (traduzindo reações de hipersensibilidade), transmissão de patógenos (doenças de transmissão vetorial) e infecções zoonóticas, as quais comumente representam graves problemas de saúde pública.


A seguir, veremos estratégias farmacológicas terapêuticas e profiláticas direcionadas a cada um dos grupos de parasitas acima descritos.


Endoparasiticidas

Nos últimos anos, as parasitoses extraintestinais, principalmente aquelas de transmissão vetorial, ganharam especial destaque especialmente pelas mudanças climáticas observadas a nível global, fato que acabou por desviar o foco da comunidade científica em relação à importância das parasitoses gastrointestinais, tanto para a saúde do paciente canino ou felino, quanto para a saúde pública. Ainda, evidências de resistência parasitária a determinados grupos farmacológicos acabaram por agravar este contexto, ressaltando a necessidade do conhecimento acerca do espectro de ação dos fármacos antihelmínticos sobre os diferentes parasitas gastrointestinais, envolvidos na vermifugação periódica, a qual deve ser realizada, minimamente, a cada trimestre. Sendo assim, no mercado médico veterinário podemos encontrar os seguintes grupos de antihelmínticos:


Cestocidas

Neste grupo farmacológico de antihelmínticos, com ação exclusivamente direcionada aos cestóides (vermes chatos, como Echinococcus spp., Dipylidium caninum e Taenia spp.), são citados a niclosamida (descrita na década de 60 principalmente pela sua ação contra Taenia spp.), o praziquantel (molécula com grande atividade contra Taenia spp., Echinococcus spp. e Dipylidium spp., mesmo sob administração única), e Epsiprantel, com características farmacológicas semelhantes à molécula anteriormente citada.


Nematocidas e protozoaricidas

Aqui são citados o pirantel e oxantel, os benzimidazóis, o nitroscanato, o emodepside, o levamisol e a piperazina. Os primeiros (pirantel e oxantel) são efetivos para os adultos de ascarídeos, ancilostomatídeos, e sua associação, para os tricurídeos (o pirantel, molécula homóloga ao oxantel, também é empregado em determinadas formulações comerciais devido ao aumento de sua biodisponibilidade intestinal). Os segundos (benzimidazóis) apresentam espectro de ação contra nematódeos intestinais e pulmonares, cestódeos (parcialmente), trematódeos e protozoários, sendo biotransformados pelo fígado e eliminados pelas fezes. Dentre os principais benzimidazólicos, podemos destacar o oxibendazol, o mebendazol, o febendazol, o flubendazol e o pró-fármaco febantel, e a importância deste grupo de antihelmínticos se relaciona, também, com a prevenção da transmissão transplacentária de Toxocara canis, a partir do quadragésimo dia gestacional. O febantel caracteriza-se por um pró-fármaco benzimidazólico biotransformado em febendazol e oxfendazol, possuindo a mesma aplicabilidade antiparasitária destas moléculas. Já o nitroscanato exerce ação contra os ancilostomatídeos, ascarídeos, cestóides (D. caninum, Taenia spp. e Echinococcus spp.) e Strongyloides stercoralis. O emodepside se trata de um composto relativamente novo no mercado médico-veterinário, tendo sido descrito em 2001, originado a partir da fermentação do fungo Mycelia sterilia. Este fármaco possui como espectro de ação os ascarídeos (adultos e imaturos), ancilostomatídeos, adultos de Dipylidiumcaninum e Taenia spp., Trichuris vulpis e Echinococcus spp.


Endectocidas

Este grupo de fármacos se refere especialmente às lactonas macrocíclicas, antibióticos macrolídeos, incluindo as avermectinas e milbemicinas. Seu espectro de ação vai além dos endoparasitas (nematódeos ascarídeos e ancilostomatídeos), uma vez que possuem ação sobre os ectoparasitas, porém são contraindicados em determinadas raças (como Collies, por exemplo) por uma peculiaridade da barreira hematoencefálica (estes animais possuem atividade reduzida da glicoproteína P, responsável pela eliminação dos fármacos lipossolúveis na barreira hematoencefálica, fato que justifica grande toxicidade ao sistema nervoso central). Tanto as avermectinas (ivermectina e selamectina) quanto as milbemicinas (moxidectina e milbemicina oxima) são amplamente empregados na prevenção da dirofilariose, devido à sua ação antiparasitária sobre as formas imaturas de Dirofilaria immitis (por este motivo torna-se importante a triagem laboratorial para a ocorrência desta doença, visto que o emprego das lactonas macrocíclicas irá impossibilitar a detecção das microfilárias).


A mais recente das lactonas macrocíclicas é a selamectina, um composto pulicida (espectro de ação sobre ovos, larvas e adultos de Ctenocephalides felis), larvicida (D. immitis), acaricida (tratamento de infecções por Sarcoptes scabiei e Otodectes cynotis), toxocaricida (no cão), ancilostomicida (nos felinos), e pediculicida (piolhos mastigadores).


A milbemicina oxima também é indicada como preventivo da dirofilariose pelo seu efeito larvicida, além de exercer ação antiparasitária sobre alguns enteroparasitas (nematóides Ancylostoma caninum, Toxocara canis, Toxascaris leonina, e Trichuris vulpis, além de cestóides). Ainda, sua ação ectoparasiticida se dá sobre os ácaros Sarcoptes Scabiei e Demodex canis.


A moxidectina também se caracteriza por uma lactona macrocíclica, indicada na prevenção das infecções por D. immitis e no tratamento de infecções por nematódeos intestinais, tais como Toxocara spp., Ancylostoma spp., Toxascaris leonina e Trichuris vulpis. A associação entre moxidectina e imidacloprida, disponível em algumas formulações comerciais, potencializa suas propriedades ectoparasiticidas, especialmente inseticida e acaricida, semelhantemente à selamectina.


Ectoparasiticidas

O manejo terapêutico e controle dos ectoparasitas representam um capítulo à parte na clínica médica de pequenos animais, uma vez que, frequentemente, trazem consigo diversas dificuldades, tais como sua resistência a vários compostos atualmente disponíveis, e ainda a difícil adesão dos tutores aos tratamentos prolongados. Ainda, o conhecimento acerca de sua biologia e dos métodos de controle demonstra relevância não só no sentido de manutenção da integridade tegumentar dos pacientes, mas também por estes parasitas representarem importantes vetores de diversos patógenos, aos animais e seres humanos, com alto potencial de adoecimento. Por este motivo, diversos produtos vêm sendo desenvolvidos na tentativa de definir tratamentos menos custosos e maior adesão por parte dos tutores, fato justificado, muitas vezes, por envolverem esquemas terapêuticos menos invasivos e mais efetivos. No entanto, a individualização profilática e terapêutica, para cada paciente, ainda caracteriza desafios a serem ultrapassados pelo médico-veterinário clínico de pequenos animais. A seguir serão discutidos os principais princípios ativos presentes no mercado, bem como seu espectro de ação e indicações terapêuticas.


Afoxolaner

Membro das isoxazolinas, o afoxolaner, um composto heteropentaciclo, possui aplicabilidade em diversas áreas do conhecimento científico, especialmente no que se refere às ciências da saúde, uma vez que já demonstraram efeitos bactericidas, fungicidas, anti-inflamatórios e antidepressivos. Neste contexto, ganha relevância, a partir de meados de 2014, sua ação ectoparasiticida, ocasionando hiperestimulação do sistema nervoso dos parasitas por meio do bloqueio dos íons cloro para o interior e exterior das células do sistema nervoso, principalmente por mediação do ácido gama-aminobutírico (GABA). Portanto, este fármaco gera uma atividade neuronal descontrolada, paralisia e morte das pulgas, carrapatos e ácaros, exercendo efeito pulicida em até 8 horas após sua administração, e carrapaticida em até 48 horas, atuando minimamente por 5 semanas para os primeiros parasitas, e por 30 dias contra os carrapatos. Recomenda-se administração mensal para a profilaxia dos referidos ectoparasitas, bem como para o manejo terapêutico da demodicidose (até que dois parasitológicos cutâneos sejam negativos, com intervalo de 30 dias entre si) e da escabiose (até que o parasitológico cutâneo seja negativo, fato que também poderá culminar em sua administração por alguns meses).


Fluralaner

Esta molécula, similarmente ao afoxolaner, pertence à classe das isoxazolinas e inibe partes do sistema nervoso do artrópode por meio do antagonismo dos canais de cloro mediados pelos receptores gaba-aminobutíricos, determinando atividade pulicida e carrapaticida. Após sua administração, a ação pulicida ocorrerá em até 8 horas, e carrapaticida, até 12 horas, eliminando ainda, as pulgas da espécie Ctenocephalides felis em até 12 semanas, os carrapatos Ixodes ricinus (responsáveis pela transmissão das espiroquetas do complexo Borrelia burgdorferi, causadores da borreliose de Lyme) Dermacentor reticulatus (transmissores de diversos patógenos do gênero Rickettsia) e Dermacentor variabilis também durante o período acima referido, e os carrapatos Rhipicephalus sanguineus (principal vetor de Babesia canis e Ehrlichia canis) por 8 semanas. Apesar de se tratar de informação extra-bula, o fluralaner já foi explorado por alguns autores em animais infestados por Sarcoptes scabiei variante canis e Demodex canis, mediante regimes de administração distintos, porém com grande eficácia terapêutica. Sua segurança, no que se refere à idade mínima dos animais a serem tratados, se restringe aos cães com mais de 8 semanas de vida.


Sarolaner

Ainda na classe das isoxazolinas, o sarolaner se apresenta como uma ferramenta adicional no controle dos ectoparasitas em cães devido ao seu espectro de ação acaricida, pulicida e carrapaticida. Seu mecanismo de ação é semelhante ao dos outros compostos da mesma classe, ou seja, o antagonismo não competitivo dos receptores GABA, ligando-se aos canais de cloro dos nervos e músculos, bloqueando a transmissão dos sinais neuronais nos insetos. As principais indicações de uso deste composto se relacionam com as infestações por carrapatos (eliminação completa em até 48 horas das espécies Rhipicephalus sanguineus, Amblyomma americanum, Amblyomma maculatum, Dermacentor variabilis, Dermacentor reticulatus, Ixodes scapularis, Ixodes ricinus, Ixodes holocyclus, Ixodes hexagonus, Haemaphysalis longicornis, Haemaphysalis langicornis e Haemaphysalis elíptica), pulgas (eliminação em até 3 horas) e ácaros (administrações orais mensais contra Sarcoptes scabiei, Demodex canis e Otodectes cynotis), com segurança farmacológica estabelecida em cães a partir de 8 semanas de vida.


Spinosad

O spinosad se trata de um composto originado das bactérias da espécie Saccharopolyspora spinosa, gram-positivas aeróbicas, exercendo ação sobre diversas espécies de insetos, em diferentes estágios de desenvolvimento. Seu mecanismo de ação relaciona-se com afinidade aos receptores de nicotínicos de acetilcolina do sistema nervoso dos insetos, interrompendo, desta maneira, a neurotransmissão da acetilcolina. Ainda, o spinosad possui efeito secundário como agonista do ácido aminobutírico (GABA), ocasionando efeito excitatório sobre o sistema nervoso central dos insetos, os levando à morte. A forma farmacêutica disponível no mercado veterinário se dá por comprimidos mastigáveis, sugerida para infestações por pulgas da espécie Ctenocephalides felis nas espécies canina e felina, e administrado mensalmente.


Lufenuron

O lufenuron pertence à classe das benzoilfeniluréias, fato que o caracteriza como um regulador do crescimento e desenvolvimento de insetos por meio do bloqueio da síntese de quitina, principal componente do exoesqueleto das formas jovens de pulgas e de outros insetos como baratas, moscas, cupins e carrapatos. Assim, esta molécula ocasiona a incapacidade de eclosão das formas jovens de seus ovos, porém sua principal ação se dá sobre as pulgas. O lufenuron não exerce ação sobre as formas adultas das pulgas, apenas interrompendo o ciclo reprodutivo do inseto pelo bloqueio das formas jovens (as formas adultas ingerem o fármaco por meio do repasto sanguíneo, e quando defecam, eliminam parte do princípio ativo junto às fezes, as quais serão ingeridas pelas formas larvais). Este ectoparasiticida se encontra disponível para caninos e felinos, e sua administração deve ser mensal.


Nitenpiram

O efeito ectoparasiticida do nitenpiram inclui apenas as formas adultas de pulgas. Este fármaco pertence à classe dos neonicotinoides, inseticidas largamente utilizados na agricultura e na medicina veterinária, os quais compreendem substâncias como a imidacloprida, acetamiprida, tiacloprida, dinotefuran, tiametoxam e clotianidina. Possui mecanismo de ação semelhante ao da imidacloprida, inibindo os receptores nicotínicos pós-sinápticos de acetilcolina dos insetos, produzindo influxo de íons sódio e subsequente colapso do sistema nervoso centra. A morte dos ectoparasitas ocorre cerca de 30 minutos após sua administração, o qual apresenta, ainda, meia-vida plasmática de aproximadamente 2,8 horas nos cães, e 7,7 horas nos felinos. Suas principais indicações terapêuticas são determinadas pelo seu efeito pulicida, em ambas as espécies acima citadas, e larvicida, para os casos de miíase canina, posologicamente sendo recomendado em dose única ou mediante sua repetição após 24 horas, na dependência da manutenção da causa de base. A segurança do tratamento com este composto sugere idade superior a quatro semanas.


Amitraz

No que se refere aos ectoparasiticidas tópicos, o amitraz se apresenta como um dos principais compostos do grupo das formamidinas, uma vez que sua aprovação, no Brasil, se restringe apenas para o uso em animais. Em cães, as principais indicações terapêuticas do amitraz incluem o controle de carrapatos, ácaros, pulgas e piolhos, tendo sido, historicamente, extensivamente utilizado no tratamento da demodicidose canina. Entretanto, um fator limitante no seu emprego seria sua toxicidade, uma vez que, mesmo utilizado de maneira tópica, sua absorção pode ser potencializada nas inflamações tegumentares (mesmo sob a diluição adequada), presentes na maior parte das dermatopatias parasitárias. Seu mecanismo de ação sobre os ectoparasitas ainda não se encontra completamente estabelecido, porém sobre as larvas de carrapatos, atua inibindo a enzima mitocondrial monoaminoxidase (MAO, responsável por catalisar a desaminação das catecolaminas, elevando os níveis de noradrenalina e serotonina no sistema nervoso central). As apresentações em veículo líquido trazem recomendações relacionadas à sua diluição, além de diversas precauções durante a aplicação.


Cipermetrina / Deltametrina / Permetrina / Flumetrina

Tais compostos pertencem à classe das piretrinas e piretroides, sendo que as primeiras moléculas são inseticidas naturais produzidos a partir das flores do gênero Chrysanthemum, e os piretróides, inseticidas sintéticos com estrutura e mecanismo de ação semelhantes, porém sendo moléculas mais estáveis. Os piretróides podem ser divididos em tipo I e tipo II, sendo utilizados no combate aos ácaros, carrapatos, moscas e mosquitos, piolhos e pulgas, e encontrando-se disponíveis no mercado veterinário em diversas apresentações, como coleiras, shampoos, talcos, pour-on, entre outros. Seu mecanismo de ação sobre os parasitas inicia-se pela sua alta lipofilidade, facilitando assim a penetração pela cutícula rica em lipídeos. Subsequentemente, tais compostos são transportados pela hemolinfa até as células do sistema nervoso dos artrópodes, sendo que, neste contexto, os piretroides tipo I aumentam a condução do sódio pelos seus canais, diminuindo o potencial de ação do tecido, e os do tipo II causam despolarização da membrana nervosa, atuando sobre os receptores colinérgicos nicotínicos, incluindo aqueles do ácido gama-aminobutírico. O resultado de ambos os mecanismos sobre os artrópodes será hiperatividade, incoordenação motora, tremores, convulsão e paralisia, podendo levá-los ou não à morte. Os produtos à base de piretroides, muitas vezes, encontram-se associados a outras classes de fármacos ectoparasiticidas, com a finalidade de aumentar o espectro de ação sobre o controle dos referidos ectoparasitas.


Fipronil

Inseticida da classe das fenilpirazolas, o fipronil se encontra disponível para cães e gatos nas formulações spray e pour-on. Seu espectro de ação inclui pulgas e todos os estágios dos carrapatos, por meio de ligação não competitiva aos canais de cloro regulados pelo ácido gama-aminobutírico, bloqueando a ação inibitória sobre o sistema nervoso dos insetos, culminando, assim, em sua hiperexcitação, paralisia e morte. A atividade inseticida residual do Fipronil decorre de sua redistribuição pela superfície da pele, especialmente nas formulações pour-on, fato este que ocorre em torno de 24 horas e permanece sob liberação em um período de até 30 dias, pelas glândulas sebáceas do animal. A apresentação pour-on pode ser utilizada para ambas as espécies aqui debatidas a partir de 8 semanas de vida, e em spray, para animais a partir de 2 dias de vida.


Imidacloprida

Pertencente à classe dos neonicotinoides assim como o nitempiram e o spinosad, a imidacloprida se encontra amplamente distribuída na apresentação tópica para cães e gatos, efetiva contra pulgas (Ctenocephalides spp.) por meio de sua ação sobre os receptores nicotínicos pós-sinápticos de seu sistema nervoso central, bloqueando os impulsos colinérgicos. Apesar de seu espectro de ação restrito, apenas pulicida, diversas apresentações comerciais incluem sua associação a outros fármacos, carrapaticidas e repelentes (como as permetrinas, por exemplo), tornando assim seu emprego vantajoso no controle integrado de ectoparasitas. A imidacloprida não é absorvida pelo tegumento, não produzindo ação sistêmica e apresentando-se efetivo contra os referidos parasitos apenas por contato, permanecendo ativa por até 4 semanas após sua aplicação. Ainda, sua segurança em filhotes gira em torno de 10 semanas de vida para ambas as espécies aqui debatidas.


Selamectina

Conforme abordado na discussão sobre endoparasiticidas, a classe das lactonas macrocíclicas inclui as avermectinas (ivermectina e selamectina) e milbemicinas (milbemicina, doramectina e moxidectina), ocasionando neurotoxicidade aos parasitas pela potencialização dos canais de cloro, incluindo aqueles regulados pelo GABA, fato que ocasiona hiperpolarização das células nervosas. Disponível em apresentação tópica, possui grande afinidade pelo tegumento e glândulas sebáceas, sendo recomendada para cães e gatos a partir de 6 semanas de vida, e possuindo ação pulicida (Ctenocephalides spp.), acaricida (Otodectes cynotis e Sarcoptes scabiei), piolhicida (Trichodectes canis), carrapaticida (Rhipicephalus sanguineus e Dermacentor variabilis), e endoparasiticida (nematóides Ancylostoma tubaeforme e Toxocara cati), incluindo a profilaxia para infecções causadas por Dirofilaria immitis quando empregado mensalmente.


Considerações finais

O conhecimento acerca dos mecanismos de ação dos antiparasitários atualmente disponíveis no mercado veterinário se apresenta de fundamental importância no controle estratégico de endo e ectoparasitas. Ainda, para cada animal, deve-se individualizar o manejo profilático e/ou terapêutico na dependência do objetivo a ser atingido, a exemplo dos animais que possuem hipersensibilidade à picada de pulgas (nestes casos sugerindo-se a utilização de compostos que possuem efeito repelente), ou ainda àqueles expostos à doenças de transmissão vetorial, como por riquétsias, por exemplo, nos quais, pelo fato da transmissão destes patógenos ocorrer pelo repasto sanguíneo dos carrapatos sob períodos variáveis, torna-se vantajoso o emprego de fármacos que permitam elevada concentração sérica e potente efeito adulticida. Finalmente, mediante o exposto, conclui-se a importância da conscientização dos tutores de cães e gatos a respeito da necessidade de controle parasitário não só pelo incômodo que estes trazem com sua colonização ambiental (domiciliar), mas principalmente para manutenção da saúde dos animais de companhia.


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*Fabio Navarro Baltazar

Médico-veterinário (CRMV-SP 19854)

Esp., MsC, doutorando

Departamento de Clínica Médica – Hospital Veterinário Pet Care (São Paulo/SP)

fabionavarro@petcare.com.br