Alimentos úmidos como palatabilizantes: como prescrever?

Por Melony Caroline F. dos Santos*


Durante a rotina clínica médico-veterinária, ocorrem situações onde existe certa dificuldade em realizar alimentação balanceada para animais com apetite caprichoso ou animais convalescentes. Esse fato se dá pela falta de interesse do animal pelo alimento oferecido, seja comportamental ou pelo grau evolutivo da doença em que ele se encontra.



Com isso, existem algumas medidas que podem ser utilizadas para ajudar na recuperação desses animais, ou seja, a nutrição e manutenção de uma dieta balanceada destes pacientes são fundamentais. Para auxiliar no interesse do animal e aumentar a ingestão alimentar, uma alternativa viável é, oferecer alimentos úmidos como palatabilizantes.


PALATABILIDADE


A palatabilidade é definida pelo sabor que o alimento proporciona ao animal quando este é consumido, e é avaliada através da ingestão deste alimento. A palatabilidade é uma particularidade muito individual e varia de acordo com o odor, textura e sabor. Um alimento mais palatável é administrado com maior facilidade e seu consumo é mais rápido. Para os cães, o sentido de maior importância para a palatabilidade é o olfato, em seguida vem o paladar e por último o textura que é a sensação do alimento na boca (Pizzato et al, 2008).


Houpt e Smith (1981) citam que o odor é mais importante para localizar e despertar o interesse dos animais pelos alimentos e não para o consumo em si, sendo o paladar o regulador de ingestão devido à aceitação pelo sabor. Alimentos que liberam odor de carne, mas que o sabor não corresponde ao odor, a preferência por aquele alimento não será mantida, devido a palatabilidade ser diferente.


O sabor do alimento é o maior responsável pela quantidade consumida. Estudos realizados por Case et al. (1998) mostraram que, independente do nível de fome, animais de companhia também tendem a consumir em excesso alimentos altamente palatáveis.


FATORES QUE COMPROMETEM A PALATABILIDADE


Como citado acima os fatores que afetam a palatabilidade são a umidade, temperatura, sabor e textura do alimento. Na textura, tem-se a forma, densidade e tamanho de partícula dos extrusados. Quanto aos teores de umidade do alimento, estes podem ser classificados como: seco (até 12% de umidade), semiúmido (12% a 30% de umidade) ou úmido (30% a 84% de umidade) (ANFAL Pet, 2009).


Kitchell (1972) constatou preferência de cães por alimentos úmidos, seguidos pelos semiúmidos e secos, respectivamente.


Miller e Hansen (1975) afirmaram que alimentos úmidos são preferidos em relação aos secos, pois durante o processamento dos alimentos secos extrusados, ocorrem alterações no teor de umidade, gordura e proteína presentes na massa (BOURGEOIS, 2004).


Os ingredientes escolhidos para o processamento do alimento também influenciam na palatabilidade. Segundo Houpt et al. (1978), a preferência alimentar entre dieta a base de milho e farelo de soja comparada à carne fresca, foi a com carne fresca. Esses mesmos autores constataram que a escolha do animal entre dietas com diferentes fontes de carne, variava conforme a fonte de proteína animal e fonte de gordura animal. Os animais preferiram carne bovina magra em relação à carne suína magra, porém, se ofertada carne bovina magra e carne suína gorda, a predileção foi por carne suína gorda.


Houpt e Smith (1981) explicam que a carne que possui mais gordura entremeada no músculo, maior maciez e suculência, é a opção de primeira escolha pelos animais, ou seja, um dos fatores mais influentes em relação à preferência por determinada carne é a quantidade de gordura (FELIX, 2010).





QUANDO PRESCREVER ALIMENTO ÚMIDO?


Existe um mito que alimentos úmidos não podem ser considerados como alimentos únicos para os cães e gatos. Hoje em dia muitas indústrias já fabricam alimentos úmidos completos e balanceados para animais saudáveis e para animais com certas enfermidades, podendo ser utilizado como a única fonte de alimento. Ressalto a importância que o balanceamento da dieta do paciente seja realizado por um médico-veterinário ou zootecnista especializado em nutrição, para garantir a nutrição completa deste animal.


Normalmente prescreve-se alimento úmido para animais que estão hiporéticos, convalescentes ou que possuem apetite caprichoso. Dentre as opções de alimentos úmidos como palatabilizantes, tem-se: alimentos úmidos industrializados, alimentos úmidos à base de proteína animal e gordura (ex: creme de leite) e proteína e gordura de origem animal natural.


1 – Alimentos úmidos industrializados: algumas empresas disponibilizam o alimento úmido na mesma proporção de macro-elementos de um alimento seco, podendo ser utilizado como única fonte de alimento, desde que calculado e balanceado para aquele animal. Estes alimentos são aqueles que estão armazenados em latinas ou sachês. Podem ser utilizados como palatabilizantes para animais que estão hiporéticos, no intuito de incentivá-los a se alimentar. Normalmente os alimentos úmidos possuem maior palatabilidade devido à sua textura, umidade, proteína utilizada que normalmente é de origem animal, e pela quantidade de gordura. Na forma de palatabilizante, eles são adicionados à alimentação normal do animal em uma quantidade menor.


2 – Alimentos úmidos à base de proteína animal e gordura: o creme de leite é um representante desta categoria, devido à quantidade de gordura que possui em sua composição. Normalmente quando adicionado à dieta do animal, auxiliam no interesse deles pelo alimento.


3 – Proteína e Gordura de Origem Animal: quando se adicionam pedaços de carne cozida morna ou banha de suíno na dieta do animal, ele acaba sendo atraído pelo odor emanado por esses alimentos e consequentemente acaba ingerindo maior quantidade do alimento oferecido devido ao sabor.


Todas as opções de palatabilizantes devem ser somadas com a dieta total do paciente, e balanceadas com base no cálculo da necessidade energética diária, para garantir a nutrição completa e ideal para cada indivíduo específico.


OUTRAS INDICAÇÕES PARA UTILIZAÇÃO DE ALIMENTOS ÚMIDOS NA DIETA DE CÃES


- Maior ingestão de líquidos, consequentemente aumenta o volume e a frequência urinária, ajudando a diminuir a densidade urinária favorecendo a saúde do trato urinário, ajudando a evitar a formação de cálculos;


- Aumento no volume diário de consumo do alimento devido sua diluição em água, possuindo menos calorias e promovendo a saciedade, ajudando no processo de emagrecimento;


- Ajuda a introduzir novamente o alimento seco na dieta do cão;


- Pode auxiliar no fornecimento de medicamentos, ajudando a encobrir sabor e cheiro de produtos rejeitados pelos animais.



*Melony Caroline F. dos Santos

Médica-veterinária (CRMV-PR: 15357) e zootecnista

Nutrição Clínica e Funcional para Cães e Gatos

melonyzoo@yahoo.com.br

Instagram: dra.mel














Referências bibliográficas


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BRADSHAW, J.W.S. Sensory and experiential factores in the design of foods for domestic dogs and catis. Proceedings of the nutrition society, 50:99-106, 1991.


BOURGEOIS, H. O livro de palatabilidade em cães e gatos. Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Royal Canin: França, 2004.


CASE, L.P.; CAREY, D.P.; HIRAKAWA, D.A. Nutrição canina e felina: manual para profissionais. Espanha: Harcourt Brace, 1998. 410p.


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