Transfusão de hemocomponentes


No ambiente de terapia intensiva e condutas no paciente gravemente enfermo, a transfusão de hemocomponentes é considerada um procedimento rotineiro, visando aumentar a concentração de oxigênio arterial, através do aumento da quantidade de hemoglobina (Hb). Entretanto apesar de salvar vidas, a transfusão de hemocomponentes não é isenta de riscos, já que células “não próprias” são infundidas podendo em algumas situações aumentar a resposta inflamatória além de causar reações transfusionais de variadas proporções. Com o objetivo de avaliar o impacto do tempo de armazenamento de concentrado de hemácias (CH) e morbidade e mortalidade em cães enfermos, HANN et al. (2014) conduziram um estudo retrospectivo avaliando 3095 cães no período de 2001 a 2010. Durante os 10 anos de estudo, 3205 cães receberam CH, porém apenas 3.095 foram incluídos, os 110 excluídos não tinham todos os dados coletados ou receberam menos de 5 ml/kg de CH, durante a transfusão. A causa mais comum da indicação da transfusão de CH foi hemorragia (n = 2103), causada principalmente por neoplasia (n=766), trauma (n= 285) e perda sanguínea cirúrgica (n=249). A hemólise foi a principal causa de anemia (n=500; 16%), onde 90% dos casos causados por anemia hemolítica imunomediada.

A deficiência de eritropoiese foi encontrada em 492 cães causada principalmente por doença imunomediada (n =138), neoplasia (n=126) e doença metabólica (n=86). As bolsas de CH transfundidas no estudo tinham média de 23 dias de estocagem, porém somente 20% dos cães receberam CH com tempo de estocagem menor de 14 dias. A média de volume transfundido de CH foi de 15,2 ml/kg (variando entre 5 ,0 a 187,5 ml/kg). Na compara- ção dos cães que receberam CH com estocagem menor de 14 dias (n= 675) com os que receberam CH com mais de 14 dias de estocagem, nenhuma diferença nos desfechos estudados foi observada (alta hospitalar, mortalidade e eutanásia) além de nao interferir na sobrevida apos 30 dias de transfusão de CH. Entretanto no subgrupo de cães com hemólise o tempo de estocagem superior a 14 dias foi associado ao incremento da mortalidade e diminuição da sobrevida apos 30 dias de transfusão de CH.

Comentários

Durante a avaliação das variáveis da entrega de oxigênio (DO2) a Hb passa a desempenhar papel fundamental na concentração arterial de oxigênio e com objetivo de otimizar a DO2, rotineiramente nossos pacientes são submetidos a procedimentos de transfusão de sangue. Nesse cenário a indica- ção de utilização de CH tem vantagem importante nos pacientes com anemia que não apresentam déficit de volume, pois não possuem o conteúdo plasmático e portanto o risco de reações anafiláticas é reduzido. Sabe-se que a estocagem do CH pode alterar a estrutura das hemácias, reduzindo a concentração de fosfolipídeos de membrana, o que impacta de maneira significativa a capacidade de maleabilidade nos capilares periféricos, além de que o tempo estocado pode interferir na capacidade da Hb em transportar as moléculas de oxigênio.

O estudo avaliado demonstrou que nos cães submetidos à transfusão de CH, o tempo de estocagem não foi fator decisivo na mortalidade, porem alguns pontos devem ser considerados: apenas 20% dos cães receberam CH com tempo de estocagem menor de 14 dias o que pode interferir com a estatística; as causas de mortalidade intra-hospitalar não são bem definidas, fazendo com que haja duvidas com a relação a transfusão dos CH e o óbito; o grupo estudado é representativo porem muito heterogêneo o que pode impactar na analise multivariada. O estudo demonstrou que no grupo de pacientes com hemólise o tempo de estocagem superior a 14 dias foi determinante para redução da sobrevida aos 30 dias além de impactar na mortalidade intra-hospitalar. Nesse grupo de pacientes a hemólise causada por doença imunomediada, representa fator de risco, pois esses pacientes possuem ativação inflamatória o que pode precipitar eventos de coagulação predispondo risco de coagulação intravascular disseminada e tromboembolismo.

A mensagem final desse estudo é que devemos racionalizar não só a indicação da transfusão de CH, mas também a utilização de bolsas estocadas com tempo superior a 14 dias, nos pacientes com anemia imunomediada, porem como o processo inflamatório é comum para a maioria dos pacientes graves poderíamos estender a indicação para os demais grupos.

Referências

Effect of Duration of Packed Red Blood Cell Storage on Morbidity and Mortality in Dogs After Transfusion: 3,095 cases (2001-2010) REFERÊNCIA J Vet Intern Med 2014;28:1830-1837 L.Hann, D.C.Brown, L.G.King, and M.B. Callan

*César Ribeiro, graduado em medicina veterinária pelo Centro Universitário Barão de Mauá em Ribeirão Preto (SP), possui aprimoramento em clinica médica de pequenos animais - mesma instituição de formação, especialização em Emergência e Medicina Intensiva Veterinária pela Academia Brasileira de Medicina Veterinária Intensiva (BVECCS), coordenador do serviço de Cuidados Intensivos - UTIVET - Ribeirão Preto (SP), instrutor dos cursos de Habilitação da La Sociedad Latinoamericana de Emergencias y Cuidados Intensivos (LAVECCS) - ABC TRAUMA e ABC CUIDADOS INTENSIVOS, professor da disciplina de Hemodinâmica do curso de atualização - INTENSIVET- CETAC/SP, autor de capítulos de livros relacionado a emergência e terapia intensiva veterinária, mestrando pelo programa de CIENCIA ANIMAL , pela UNIFRAN (Franca/SP).

Artigo publicado na edição 19 da Revista Veterinary&Science

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